Cultura

As múltiplas faces da Beleza entre os gregos

Explore como a percepção da beleza evoluiu na Grécia antiga, desde a Ilíada até a arte helenística

Em Laocoonte, o corpo clássico perde definitivamente a serenidade
Em Laocoonte, o corpo clássico perde definitivamente a serenidade
Marlene Polito

por Marlene Polito

Publicado em 26/05/2026, às 11h24


Antes de a Grécia transformar a Beleza em proporção e harmonia, ela primeiro a transformou em fascínio.

Na Ilíada, de Homero, Helena aparece como a mulher cuja beleza teria levado gregos e troianos à guerra. Ainda não existe ali uma teoria do belo. Existe, porém, a percepção de que certas formas exercem sobre o homem um poder quase irresistível.

À medida que a civilização grega se transforma, o belo começa a adquirir contornos mais conscientes. A ascensão de Atenas entre os séculos V e IV a.C. produz não apenas poder político e econômico, mas também uma nova confiança na razão e na capacidade humana de organizar o mundo.

Sob Péricles, templos destruídos pelos persas são reconstruídos, enquanto escultura, arquitetura, teatro e filosofia florescem como expressão da potência ateniense.

É nesse contexto que a arte grega começa a se afastar da rigidez das formas egípcias.

Nas esculturas do Egito antigo, os corpos permanecem frontais e rígidos, submetidos a uma ordem ligada à eternidade. Com os gregos, algo lentamente muda.

Por volta do século VI a.C., os primeiros Kouros de Anavyssos ainda conservavam algo dessa rigidez. Permaneciam frontais e simétricos, mas o corpo começava a buscar outra presença.

A anatomia torna-se mais observada. O homem deixa de ser apenas símbolo de eternidade e passa a ocupar o centro da experiência humana.

Nos kouroi, a anatomia já começa a despertar.
Nos kouroi, a anatomia já começa a despertar.

Essa transformação não se limitava à escultura. A própria filosofia começava a imaginar que o universo obedecia a relações proporcionais.

Como observa Umberto Eco em História da Beleza, Pitágoras sustentava que o princípio de todas as coisas era o número. Diante do infinito, os pitagóricos buscavam na proporção uma forma de tornar o mundo compreensível.

Talvez por isso a simetria tenha se tornado um dos grandes ideais da arte grega clássica.

Em Doríforo, do século V a.C., essa confiança atinge um de seus pontos mais altos. O peso do corpo se desloca suavemente sobre uma das pernas, enquanto o tronco acompanha discretamente o movimento. A harmonia surge menos da rigidez do que de uma contenção perfeita.

O Doríforo que hoje contemplamos, entretanto, já pertence também à história das perdas da Antiguidade. Muitas esculturas gregas chegaram até nós por meio de cópias romanas, já que os originais em bronze desapareceram ao longo do tempo.

No Doríforo, o equilíbrio deixa de ser imóvel. O corpo já respira.
No Doríforo, o equilíbrio deixa de ser imóvel. O corpo já respira

Mas talvez a própria ideia de uma “Beleza clássica” perfeitamente estável tenha sido construída muito mais tarde.

Como lembra Eco, os gregos não possuíam inicialmente uma concepção única e sistemática do belo. A própria palavra kalón não corresponde exatamente ao que hoje entendemos por “beleza”. Designava aquilo que agradava, despertava admiração e atraía o olhar. No caso do corpo humano, porém, não eram apenas as formas visíveis que importavam. Também as qualidades da alma e do caráter participavam dessa percepção.

Talvez por isso a Beleza grega jamais tenha pertencido a um único domínio. Ela assumia formas distintas conforme a arte que a exprimia: na música, aparecia como harmonia; na poesia, como encanto; na escultura, como proporção; na retórica, como ritmo.

Não por acaso, essa busca de proporção ultrapassa a escultura e alcança também a arquitetura. No Partenon, a Beleza depende da relação precisa entre as partes.

Essa confiança na medida ultrapassava a arte e alcançava a própria maneira de viver.

No Oráculo de Delfos, inscrições como “Conhece-te a ti mesmo” e “Nada em excesso” expressavam uma ética da contenção e do equilíbrio.

A Beleza clássica pressupunha harmonia entre corpo, caráter e razão.

A própria cultura grega, porém, já carregava outra força em movimento.

Ao lado de Apolo, deus da luz, da clareza e da medida, Dioniso permanecia associado ao êxtase, ao excesso e à dissolução dos limites. Apolo organizava. Dioniso arrastava. Um buscava equilíbrio; o outro, intensidade.

A harmonia jamais existiu sem a sombra da desordem.

Em Discóbolo, do século V a.C., o corpo já não repousa. Há tensão e energia, mas tudo continua obedecendo à proporção.

No Discóbolo, o movimento é capturado antes da explosão do gesto.
No Discóbolo, o movimento é capturado antes da explosão do gesto

No século IV a.C., em Afrodite de Cnido, a Beleza clássica ganha delicadeza e sensualidade. A perfeição torna-se mais próxima do homem.

Afrodite de Cnido – a arte torna-se mais humana e sensual
Afrodite de Cnido – a arte torna-se mais humana e sensual

Após as conquistas de Alexandre e a expansão do mundo helenístico, a arte grega torna-se mais dramática e emocional. O equilíbrio cede espaço ao movimento intenso e à instabilidade.

A Vitória de Samotrácia já parece avançar contra o vento. A serenidade clássica começa a ceder lugar ao impacto emocional.

A Vitória de Samotrácia já não repousa. Avança contra o vento.
A Vitória de Samotrácia já não repousa. Avança contra o vento

Em Laocoonte e seus filhos, do século I a.C., o corpo clássico abandona definitivamente a serenidade imóvel e se contorce em dor e desespero.

Era como se, por trás da medida de Apolo, Dioniso jamais tivesse deixado de esperar.