Cultura

O poder irresistível do entusiasmo

Grandes momentos da história foram protagonizados por pessoas que recorreram ao entusiasmo para superar limitações

A emoção verdadeira é contagiante - Imagem: Freepik
A emoção verdadeira é contagiante - Imagem: Freepik
Reinaldo Polito

por Reinaldo Polito

Publicado em 22/05/2026, às 16h12


Há uma história que vale a pena conhecer. Ela foi contada no livro Do fracasso ao sucesso nas vendas, de Frank Bettger. Depois de fracassar em diversas atividades e querendo mudar de vida, ele decidiutrabalhar como corretor em uma seguradora. Sua expectativa era conseguir uma boa remuneração.

O resultado, entretanto, ficou muito distante do que imaginava. Passados alguns meses, não havia realizado nenhum negócio. Como tinha frequentado apenas o curso médio, a dificuldade para encontrar outro trabalho era grande. Não poderia continuar ali. Precisava sobreviver. A única possibilidade parecia ser voltar ao que fazia no passado: trabalhar como cobrador usando a bicicleta.

Uma reviravolta

O destino, porém, tinha outros planos. Bettger precisou retornar à corretora para pegar alguns pertences deixados na gaveta. Por acaso, naquele dia o presidente da empresa ministrava um curso para os vendedores. Bettger o admirava profundamente. Afinal, ele começara na corretora aos 11 anos de idade e alcançara o mais alto posto hierárquico da companhia.

Resolveu ouvir o que aquele grande comandante tinha a ensinar. Recebeu orientações para fazer determinado número de visitas diárias e organizar os dias da semana para saber quem deveria procurar. Colocou em prática aquelas recomendações e deu certo. As vendas começaram a acontecer.

Do fracasso ao sucesso

Uma das lições mais importantes que recebeu foi a de que nenhuma técnica de vendas supera o entusiasmo. Aprendeu que o ânimo de um profissional pode até compensar deficiências técnicas. Essa disposição transformou sua vida. Bettger se tornaria um dos vendedores mais bem-sucedidos dos Estados Unidos.

Grandes momentos da história foram protagonizados por pessoas que recorreram ao entusiasmo para superar limitações. Na oratória, há exemplos extraordinários de oradores que fracassaram nas primeiras vezes em que ocuparam a tribuna. É o caso de Demóstenes, considerado o maior orador da Antiguidade.

A dedicação de Demóstenes

Possuía voz fraca. Sua dicção era sofrível. Tinha o hábito de levantar constantemente o ombro enquanto falava. Era ridicularizado por causa dessas deficiências. Ainda assim, decidiu que se transformaria em um grande orador.

Raspou metade do cabelo e da barba para não cair na tentação de abandonar o isolamento a que se submetera. Para fortalecer a voz, fazia caminhadas diárias na praia. Corrigiu a dicção treinando com seixos na boca. Colocou uma espada apontada para o ombro e, toda vez que fazia o movimento inadequado, acabava ferido. Foi assim, movido por determinação quase obsessiva, que se transformou em um dos maiores exemplos da oratória.

A defesa do filho

Outro homem que deu demonstrações impressionantes do poder do entusiasmo foi Victor Hugo, autor de Os Miseráveis. Ele ofereceu um exemplo admirável de como uma causa pode ser defendida quando acreditamos profundamente nela.

Seu filho, Charles Hugo, depois de presenciar a luta desesperada de um condenado à morte para tentar salvar a própria vida, ficou tão indignado com a situação que escreveu um artigo contra a pena capital e o publicou em um dos mais importantes jornais franceses da época. Como a pena de morte era prevista em lei, adversários da família aproveitaram o episódio para atacar o grande escritor processando o jovem.

A emoção compensou a falta da técnica

Levado a julgamento, o próprio Victor Hugo decidiu assumir a defesa do filho. Proferiu um discurso tão emocionado que, mesmo sem ser advogado e sem dominar a técnica jurídica, conseguiu absolver o ente querido:

"O verdadeiro culpado neste assunto, se há algum, não é meu filho; sou eu!”

Com voz forte e tomada pela emoção, Victor Hugo se agiganta diante do tribunal e repete:

“Sou eu!”

E, como se defendesse a própria vida, acrescenta:

“Esse crime — o de combater a pena de morte — cometi-o muito antes que meu filho. E me denuncio, senhores! Cometi-o com todas as circunstâncias agravantes: com premeditação, com tenacidade, com reincidência!”

Nem um grande advogado faria melhor

Entregando-se de corpo e alma à defesa do filho, chama para si toda a responsabilidade daquela atitude:

“Isso que meu filho escreveu, só o escreveu porque eu o inspirei desde a infância; porque, ao mesmo tempo em que é meu filho segundo o sangue, é meu filho segundo o espírito; porque quer continuar a tradição de seu pai. Eis aí um delito estranho, e pelo qual me admiro que se queira persegui-lo!”

Será que algum advogado, por mais profundo que fosse seu conhecimento da legislação francesa, conseguiria pronunciar palavras tão emocionadas e capazes de revelar de forma tão intensa o sentimento daquele pai?

A emoção verdadeira é contagiante. Envolve os liderados, desperta energia e os transforma em uma extensão revigorada da nossa vontade.

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