Cultura

Entre a queda e a escolha

“Da menina mais bonita, quero um beijo e um abraço”

Antes do beijo, o instante decisivo é o toque que se aproxima - Antonio Canova, Psyche Revived by Cupid’s Kiss, 1787–1793

Marlene Polito Publicado em 24/02/2026, às 10h41

Pouco? Talvez

Mas talvez seja justamente essa medida, nem tudo, nem demais, que uma antiga cantiga infantil nos ensine sobre desejo, escolha e delicadeza.

No parquinho da escola infantil, risos, gritos e corre-corre se misturam às vozes das crianças que cantam Terezinha de Jesus. A cantiga surge no meio da brincadeira, quase sem ser notada, como se pertencesse ao ar daquele espaço.

Cantos de roda atravessam gerações assim: inscritos na memória, repetidos sem esforço, transmitidos sem explicação. Sob a aparência simples, guardam pequenas narrativas carregadas de valores, escolhas e modos de relação.

Terezinha de Jesus é uma delas: uma história que começa com uma queda e termina com um beijo e um abraço. Entre uma coisa e outra, cabe quase tudo o que chamamos de civilização.

Os versos

Basta ouvir com calma os versos que as crianças repetem quase sem perceber, herdados de outras vozes, de outros tempos:

Terezinha de Jesus
de uma queda foi ao chão.
Acudiram três cavaleiros,
todos três de chapéu na mão.
O primeiro foi seu pai,
o segundo, seu irmão.
O terceiro foi aquele
que a Tereza deu a mão.

A figura dos três cavaleiros, chapéu na mão, não é casual. Ela remete a um imaginário que atravessou séculos antes de chegar às rodas infantis, ligado às tradições ibéricas, às narrativas orais e ao universo simbólico da cavalaria. Dialoga também com o amor cortês, em que aproximar-se supunha contenção e reconhecimento.

Retirar o chapéu não é mero sinal de educação; é um gesto de medida. Diante da fragilidade, o corpo se recolhe, o impulso se suspende, e a ação cede lugar ao respeito.

Não há disputa nem espetáculo. Pai e irmão cumprem a proteção imediata. O terceiro permanece em espera. Nada exige, nada promete. Apenas aguarda.

A escolha, então, não se dá por palavras nem promessas, mas por um gesto mínimo: a mão que Terezinha estende.

A cantiga, contudo, não se encerra na cena cerimonial dos cavaleiros. Em seus versos finais, ela desce à vida concreta: da laranja, quer-se um gomo; do limão, um pedaço; da menina mais bonita, um beijo e um abraço. Já não há solenidade nem hierarquia. O que surge é o desejo na medida justa: não a posse inteira, mas a parte consentida, o afeto possível.

E é justamente depois dessa descida ao concreto que a queda ganha seu verdadeiro sentido.

A queda

A queda de Terezinha não é apenas um acidente narrativo. É ruptura. Até ali, há movimento e distração; ao cair, o corpo interrompe o fluxo, toca o chão e se torna visível em sua vulnerabilidade.

Em muitas narrativas simbólicas, cair é perder a posição segura, abandonar a verticalidade, reconhecer um limite. A queda não humilha; humaniza. Ela suspende a sensação de controle e desfaz a ilusão de autossuficiência.
Não escolhemos apesar da queda. Escolhemos a partir dela.

É no limite, e não na segurança, que a escolha revela seu verdadeiro peso. É porque Terezinha cai que os cavaleiros se aproximam. É porque há fragilidade que o gesto ganha sentido.

É nesse intervalo, entre o chão e o gesto, que algo decisivo acontece. A fragilidade convoca o cuidado, mas não elimina a autonomia. Ninguém decide por Terezinha. A vulnerabilidade não suprime sua escolha; ao contrário, torna-a mais significativa.

Talvez por isso a cantiga nos cause estranhamento. Vivemos na cultura da resposta imediata, do impulso que se antecipa ao outro, da afirmação que dispensa escuta. A roda infantil, sem alarde, preserva outra lógica.

Talvez tenhamos desaprendido a esperar.

Um gesto mínimo

Edward Hopper, Summer Evening, 1947 - A aproximação é possível. O gesto, ainda suspenso

 

Ao longo da história da arte, poucos movimentos foram tão decisivos quanto o da mão que se estende. Não é um gesto ruidoso. Ainda assim, concentra pactos, escolhas e passagens.

Na escultura Psyche Revived by Cupid's Kiss, de Antonio Canova, o instante decisivo não está no beijo iminente, mas no toque suspenso das mãos que se procuram. Antes do abraço, há o gesto que restitui o vínculo, que traz a vida de volta.

Em Summer Evening, de Edward Hopper, o gesto sequer se realiza. Duas figuras permanecem próximas na varanda, envoltas pela luz do entardecer. As mãos não se tocam. A aproximação é possível, mas contida. Hopper detém-se nesse intervalo, o momento em que tudo pode acontecer ou permanecer em suspenso.

E no cinema mudo, pense-se em City Lights, de Charlie Chaplin, quando a palavra ainda sustentava o drama, era o gesto que narrava. Um simples toque de mãos, na cena final, bastava para alterar destinos e condensar o indizível.

Charles Chaplin, City Lights, 1931 - Entre a espera e o encontro, basta um gesto

 

A escultura mostra o toque.
O cinema mostra o reconhecimento.
Hopper mostra a espera.
E a cantiga mostra a escolha.

Talvez por isso essas cantigas sobrevivam. Não ensinam moral. Mostram. Entre uma queda e um abraço, aprendemos - ou reaprendemos - que civilização também é isso: saber esperar, saber medir, saber oferecer a mão antes de qualquer palavra.

É uma coragem rara.
E é ali, nesse gesto mínimo, que algo recomeça.

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