Oratória

Erra quem pensa que oratória se resume à voz, à postura e à gesticulação

Imaginam que tudo se resume ao uso correto da voz e da gesticulação

Muitas pessoas possuem ideia distorcida do que seja oratória - Imagem: Freepik

Reinaldo Polito Publicado em 22/03/2024, às 14h57

Muitas pessoas, e, realmente, são mesmo em número elevado, possuem ideia distorcida do que seja oratória. Imaginam que tudo se resume ao uso correto da voz e da gesticulação. Como o gesto é mais evidente, e seu estudo, não raro, mais trabalhoso, há a supervalorização desse aspecto da comunicação.

Foram incontáveis as vezes em que ouvi, dos responsáveis pela editoria dos órgãos de imprensa para os quais escrevo, pérolas como esta: Polito, seria interessante você fazer uma análise da comunicação do presidente. Acho que os leitores gostariam de saber como ele gesticula.

Nunca deixei esse equívoco sem uma explicação.

Sem hesitar, eu questionava: você está dizendo que a análise da oratória deveria se restringir a esse aspecto? Você sabia que há um conjunto muito mais abrangente dentro desse estudo? Parou para pensar que, embora a expressão corporal seja relevante, ela é apenas um item na arte de falar em público?

Se deu conta de que, na maior parte das vezes, vale mais a linha de argumentação usada pelo orador? Em certas circunstâncias, chega a ser mais importante observar se este político, por exemplo, soube lançar mão de refutações adequadas para neutralizar as acusações que recebeu. E há momentos, ainda, em que a pausa silenciosa é mais eloquente que as palavras.

Avaliação dos ouvintes

Para concluir as minhas considerações, alertava: poderia ser mais adequado observar se ao planejar o discurso o palestrante ponderou de forma apropriada quais as características dos ouvintes. Se avaliou bem qual a faixa etária, o nível intelectual e o conhecimento que as pessoas tinham sobre o tema da apresentação. E mais, se além dessas reflexões, depois de iniciar a fala, ficou atento às reações do público para fazer as modificações necessárias à nova realidade.

Todos, sem exceção, se surpreendiam com essas informações. Confessavam que nunca haviam pensado na oratória por esse prisma e que, por isso, possuíam opinião equivocada a respeito do assunto. Entendiam que, se a análise se limitasse ao que haviam sugerido inicialmente, o texto poderia ficar pobre e incompleto.

Se erram esses profissionais, que estão constantemente envolvidos com questões relacionadas ao desempenho da oratória daqueles que perambulam pelas páginas dos jornais e das revistas, portais da internet e emissoras de rádio e televisão, não é difícil deduzir o que acontece com quem não pertence diretamente a esse mundo.

Os debates

Houve situações em que estudei com detalhes o comportamento dos políticos durante determinado debate. Ao receber o artigo, o editor torceu o nariz e

enfatizou que aquele tipo de análise deveria ficar sob a responsabilidade dos comentaristas políticos, pois eles eram os profissionais especializados nessa área.

Mais uma vez tive de argumentar: os debatedores se valeram de argumentos para defender determinado ponto de vista e atacar o adversário. Tudo a ver com a oratória. Um falou de improviso e o outro recorreu às anotações. Tudo a ver com a oratória. Um se movimentou mais que o outro, mas não teve bom contato visual com a câmera. Tudo a ver com a oratória.

Tarefa para os especialistas

No fim, concluíam que os especialistas seriam mais úteis no levantamento das intrigas de bastidores, pois esse era um campo em que poderiam ter opiniões mais confiáveis. E para não arrumar confusão eu ficava calado, mas conversas de bastidores são pontos que também se apoiam no planejamento das apresentações e, portanto, tudo a ver com a oratória.

Por isso, sempre que vir um orador se apresentando, lembre-se de que a concatenação das ideias, as palavras pronunciadas, as pausas expressivas e até o momento escolhido para beber um gole de água estão relacionados à arte de se expressar. E no caso de ele não ter um bom desempenho, a falta de planejamento também pode ser avaliada pelos conceitos da oratória.

Mesmo a fala improvisada, que aparentemente nasce no instante da apresentação, quase sempre foi meticulosamente elaborada. Mark Twain, que além de ter sido excelente escritor, também dominava com maestria os segredos da arte de falar em público, dizia que precisava de pelo menos três semanas para fazer um bom improviso.

Reinaldo Polito é Mestre em Ciências da Comunicação e professor de Oratória nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão de Marketing e Comunicação, Gestão Corporativa e MBA em Gestão de Marketing e Comunicação na ECA-USP. Escreveu 35 livros, com mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos em 39 países. Siga no Instagram: @polito pelo facebook.com/reinaldopolito pergunte no https://reinaldopolito.com.br/home/

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