“O que se mostra demais, esconde", Provérbio japonês
Marlene Polito Publicado em 20/01/2026, às 11h22
A primeira vez que visitei Kioto, eu carregava comigo uma coleção de imagens prontas, aquelas que a distância insiste em transformar em certezas. Imaginava o Japão como um mosaico de tradições imutáveis, rituais milenares e uma estética tão rigorosamente codificada que qualquer deslize pareceria profanação. No centro desse imaginário estava o Kabuki.
Sempre acreditei que o teatro é uma espécie de espelho cultural, no qual cada sociedade se reflete à sua maneira. Por isso, antes mesmo de entrar, eu já levava comigo expectativas. Talvez até a confirmação confortável daquilo que eu já “sabia”.
O teatro ficava em uma rua discreta. As pessoas chegavam aos poucos, com gestos contidos e vozes baixas. Cada um ocupava seu lugar com naturalidade, respeitando o espaço do outro. Tudo correspondia à imagem que eu trazia daquela cultura: discrição, economia de movimentos, atenção ao entorno.
Quando o espetáculo começou, porém, essa expectativa se desfez.
O palco ganhou cor, intensidade, gestos amplos e deliberadamente exagerados. Os atores avançavam com precisão coreografada, ocupando o espaço com uma energia quase excessiva.
Mais surpreendente ainda era a plateia. Em momentos específicos, o público reagia, chamava o ator pelo nome artístico, acompanhava a ação com manifestações sonoras e entusiasmadas. Para quem associava aquela cultura ao silêncio e à contenção, o contraste era desconcertante.
A pergunta surgiu inevitável: como conciliar essa exuberância com uma sociedade que cultiva a reserva e o respeito quase cerimonial pelo espaço do outro?
Com o tempo, ficou claro que o estranhamento dizia menos sobre o Kabuki e mais sobre o meu olhar. O inusitado não estava apenas no palco. Estava em mim. O que parecia ruptura revelava-se coerência, organizada por critérios diferentes dos nossos. O Japão não se estrutura pela eliminação dos opostos, mas pela convivência rigorosa entre eles.
No Kabuki, tudo é amplificado: gesto, cor, maquiagem, presença corporal. Mas nada é improvisado. Cada movimento exagerado obedece a uma gramática precisa, transmitida por gerações como uma escrita do corpo. A exuberância não nasce da espontaneidade; nasce da disciplina. O excesso não rompe a forma; ele é a forma.
O mesmo vale para a participação da plateia. As manifestações não surgem ao acaso. Aparecem em momentos reconhecidos e culturalmente autorizados. O público não invade a cena; acompanha-a. A participação, longe de ser desordem, faz parte do rito. Fora daquele espaço, a contenção retorna.
Essa lógica ajuda a compreender algo mais amplo. A arte japonesa se constrói a partir de dois polos que não se anulam, mas se sustentam mutuamente: a contenção extrema – o teatro Nô, o haicai, a pintura monocromática; e a exuberância codificada – o kabuki, as gravuras ukiyo-e, os festivais populares.
Não são estilos opostos, mas modos complementares de habitar o mundo.
Talvez por isso o kintsugi diga tanto. Reparar uma peça quebrada sem apagar a fratura é mais do que uma escolha estética. É uma posição diante do mundo. O objeto não volta a ser o que era, nem tenta parecer intacto. Ele carrega sua história. O ouro não glorifica a falha; assume -a. Há nesse gesto uma ética silenciosa: cuidar da forma é cuidar da relação.
Vista assim, a experiência no Kabuki deixa de ser paradoxo e se torna chave de leitura. O que parecia contradição revela-se uma sofisticada arquitetura cultural.
O Japão não cultiva o silêncio por aversão à intensidade, nem celebra o excesso por descuido com a forma. Ele ensina que ambos podem coexistir, desde que educados pelo respeito ao outro, ao espaço e ao tempo compartilhado.
Talvez seja essa a lição mais instigante. Nem toda intensidade precisa ser ruidosa. Nem todo silêncio é vazio. Há culturas que aprenderam a organizar a emoção, não a eliminá-la. E, ao fazê-lo, transformaram arte, gesto e ética em partes inseparáveis de um mesmo desenho invisível.