Cultura

Quem foram esses tais de Rui Barbosa e Antônio Vieira?

Explore o embate entre Rui Barbosa e Carneiro Ribeiro sobre o Código Civil e suas implicações na gramática

Aprenda sobre a importância de apresentar figuras históricas a novos leitores - Imagem: Reprodução
Aprenda sobre a importância de apresentar figuras históricas a novos leitores - Imagem: Reprodução
Reinaldo Polito

por Reinaldo Polito

Publicado em 06/03/2026, às 09h32


Houve época em que eu falava de Vieira com toda a naturalidade, pois pressupunha que fosse um nome conhecido por todos. Em determinado momento, porém, nem sei bem o motivo, perguntei aos alunos se todos conheciam o famoso pregador. Para minha surpresa, só um.

Insisti. Não estou indagando se já leram as obras do padre jesuíta, mas se pelo menos sabem onde nasceu e em que período viveu. O silêncio continuou. Naquele instante, descobri que há muitos anos estava errando. Partira sempre da pressuposição de que certas figuras importantes da história brasileira e universal fossem conhecidas.

Imperador da língua portuguesa

É evidente que em uma situação como essa eu jamais poderia demonstrar surpresa, já que se agisse assim talvez passasse a impressão de que estaria criticando a falta de conhecimento daquela plateia. Correria o risco de que se sentissem ridicularizados e até menosprezados.

Como se estivesse apenas confirmando, continuei: como vocês sabem, Vieira foi o melhor orador da língua portuguesa, o melhor pregador da língua portuguesa e o melhor escritor da língua portuguesa. Ninguém falou e ninguém escreveu melhor que Vieira. Tanto assim que Fernando Pessoa se referiu a ele como “imperador da língua portuguesa”.

Veio para o Brasil aos 6 anos

Após essa rápida informação, com todos mais ou menos alinhados e, provavelmente, desejosos de saber mais sobre essa personagem, passei alguns dados relevantes sobre ele. Antônio Vieira nasceu em Lisboa, no ano de 1608, e morreu em 1697, portanto, aos 89 anos, em Salvador. Veio de Portugal para o Brasil ainda menino, com apenas seis anos de idade. Toda a sua formação se deu em terras brasileiras.

Imaginei que essa breve biografia seria suficiente para instigá-los a pesquisar e se aprofundarem no tema. Um dos alunos, todavia, tomou a iniciativa e perguntou o que mais havia de interessante a respeito dele. O objetivo naquele momento não era dar uma aula sobre Vieira, mas sim contextualizar uma de suas obras, o Sermão da Sexagésima.

Aula de oratória para os padres

Esse sermão, pregado em Lisboa em 1655, é uma extraordinária aula de oratória. Nessa sua pregação, é possível encontrar tudo o que seja relevante sobre o orador, os ouvintes e o tema. Foi uma aula que ele ministrou, ensinando os padres como poderiam aprimorar sua capacidade de se comunicar e fazer suas pregações com mais eficiência.

Diante do questionamento, porém, como o assunto me é bastante caro, expliquei outros detalhes da sua vida. Disse que Vieira reuniu em sua obra mais de duzentos sermões que pregou ao longo da vida, obras elevadas da nossa literatura. Além de escritor e orador, foi filósofo e diplomata. Ajudou a catequizar e defendeu os indígenas. Criticou a Inquisição e se mostrou solidário aos judeus. Era o suficiente para os que desejassem saber mais sobre ele e se motivassem a ler seus sermões.

A reforma ortográfica

Os sustos ainda não haviam terminado. Certa vez escrevi um texto para importante órgão de imprensa. O tema fazia referência a Rui Barbosa. Resolvera falar sobre ele dentro de um contexto em que se discutia a reforma ortográfica brasileira. Comentava o Acordo Ortográfico de 1990 e sua obrigatoriedade a partir de 2016.

Esse acordo alterou por volta de 5% das palavras e padronizou a escrita nos países que adotam a língua portuguesa. Era um bom momento para trazer à luz a famosa polêmica ocorrida no período de 1903 a 1905 entre Rui Barbosa e Carneiro Ribeiro, dois expoentes do nosso idioma.

A Réplica e a Tréplica

A questão girou em torno do Código Civil brasileiro. Carneiro Ribeiro, sem tempo hábil, revisou o código. Rui, em sua “Réplica”, criticou o projeto elaborado por Clóvis Beviláqua e revisado por Carneiro Ribeiro. Carneiro não se conformou com as críticas e respondeu com a “Tréplica”. Quanto aprendizado é possível adquirir desse embate, pois cada um defendia determinadas escolhas gramaticais.

Ao enviar o texto, recebi uma mensagem do editor dizendo que talvez não fosse interessante publicar aquele artigo. Perguntei o motivo e ele me respondeu que os jovens leitores não tinham a mínima ideia de quem fora Rui Barbosa. Retruquei que essa seria, então, uma boa oportunidade para que aprendessem.

Óbvio para nós, mas não para os outros

Não muito convencido, até meio contrariado, cedeu diante da maneira firme como argumentei. Para grande surpresa, até minha, a matéria interessou a muitos leitores, que fizeram vários comentários e inúmeras perguntas. Sim, a maioria não sabia mesmo quem havia sido Rui Barbosa, mas os leitores, geralmente, são ávidos por conhecimento.

Esse foi um bom aprendizado. Embora as pessoas não conheçam figuras importantes da nossa história, isso não significa que não queiram conhecê-las. Como dizia Umberto Eco, a cultura não consiste em saber tudo, mas em saber onde encontrar as respostas. Temos de tomar cuidado com a pressuposição de que informações que parecem óbvias para nós também o sejam para os outros.