Entenda como contratos de namoro refletem a complexidade das relações contemporâneas e a busca por segurança emocional

por Marlene Polito
Publicado em 02/06/2026, às 11h29
No auditório do Centro Universitário de Patos de Minas, durante um Fórum Jurídico, jovens universitários acompanhavam com naturalidade a palestra instigante do professor e advogado Dr. Felipe Assis: “Do Namoro à Herança, sem Esquecer dos Pets: os Novos Desafios do Direito Civil”.
Falava-se sobre contratos de namoro, patrimônio, herança e guarda de animais após separações. O curioso não era exatamente o tema, mas a ausência de estranhamento diante dele.
Questões que, em outras épocas, talvez parecessem incompatíveis com a ideia de romance, hoje pertencem ao universo contemporâneo das relações amorosas.
O amor foi cantado como vertigem e perdição. Levou personagens à guerra e ao suicídio. Inspirou poemas, óperas, tragédias e grandes obras da civilização ocidental.
Hoje, o amor parece atravessado por outra sensibilidade. Ama-se, mas calculam-se riscos. Compartilham-se afetos, mas preservam-se fronteiras. Busca-se intimidade sem abrir mão de si. Talvez porque o homem contemporâneo deseje simultaneamente entrega e autonomia.
Entre os amantes de O Beijo e os contratos de namoro contemporâneos existe uma mudança na forma de lidar com intimidade, liberdade e permanência.
O contrato de namoro surge justamente nesse ponto delicado. Não como negação do amor, mas como sinal de uma época que tenta organizar juridicamente até aquilo que sempre escapou às tentativas de controle: os vínculos humanos.
Na Antiguidade, casamento e amor raramente coincidiam. Entre gregos e romanos, estava ligado à continuidade familiar, ao patrimônio, à estabilidade política e às alianças sociais. Esperava-se da união formal equilíbrio e permanência, não necessariamente paixão. O amor intenso surgia muitas vezes fora das estruturas oficiais, nos mitos, na poesia e nas tragédias.
Assim, enquanto o casamento pertencia ao campo da organização social, o amor habitava frequentemente o território do excesso e da instabilidade.
Foi sobretudo a partir do século XVIII que amor e casamento começaram a aproximar-se no imaginário ocidental. Não porque as alianças econômicas e familiares tenham desaparecido, mas porque o indivíduo moderno passou a reivindicar algo até então incomum: o direito de escolher, por afeto, com quem dividir a própria vida.
Essa transformação alterou de forma profunda a ideia de intimidade.
O Romantismo teve papel decisivo nesse processo. O amor deixou de ser apenas uma circunstância possível para tornar-se experiência significativa da identidade humana. O amado deixa de ser apenas companhia social e passa a revelar ao indivíduo partes ocultas de si mesmo.
Não por acaso, os heróis românticos frequentemente vivem seus afetos como intensidade absoluta. Sofrem em excesso, desejam em excesso, idealizam em excesso.
Talvez seja nesse momento histórico que o Ocidente passe a alimentar uma expectativa ambiciosa: a de que o amor possa unir paixão, felicidade, pertencimento, estabilidade e realização pessoal numa mesma relação. Mas essa promessa nunca esteve livre de tensão.
Para Hegel, o amor envolve reconhecimento. O indivíduo busca no outro confirmação da própria existência. Amar seria, de certo modo, manter-se fiel à própria individualidade e, ao mesmo tempo, abrir espaço para outra consciência.
Já Nietzsche percebeu que o amor, não raro, nasce de projeções e idealizações. O apaixonado cria imagens e amplia virtudes. Talvez por isso tantas experiências amorosas oscilem entre encantamento e frustração.
Essa tensão aparece de maneira extraordinária na arte.
Décadas depois, em Os Amantes, o beijo permanece, mas os rostos estão cobertos por tecidos. Intimidade e distância coexistem na mesma imagem.

Ao longo do século XX, as relações tornaram-se ainda mais complexas. A ampliação das liberdades individuais transformou radicalmente os vínculos afetivos. O casamento deixou de ser destino inevitável; as relações passaram a depender menos da permanência imposta externamente e mais da vontade contínua dos envolvidos.
Zygmunt Bauman observou que os vínculos contemporâneos oscilam entre a necessidade de intimidade e o receio da dependência emocional. Ama-se intensamente, mas teme-se perder autonomia.
É justamente nesse contexto que o contrato de namoro encontra seu significado simbólico mais profundo.
O contrato de namoro não representa necessariamente a ausência de sentimentos. Revela, antes, uma época que procura conciliar afeto e prudência, entrega emocional e preservação da individualidade.
Como se o homem contemporâneo tentasse controlar racionalmente experiências sempre associadas ao risco, ao descontrole e à vulnerabilidade.
Talvez resida aí uma das questões mais delicadas do nosso tempo: até que ponto é possível proteger-se sem perder aquilo que o amor tem de mais singular – a capacidade de nos desorganizar, de nos transformar e de nos expor?”

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]
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Amor e contrato de namoro