Entenda como as tarifas impostas por Trump impactam a economia brasileira e a relação entre os dois países

por Reinaldo Polito
Publicado em 19/06/2026, às 11h07
Trump é um bocudo. Governa a nação mais poderosa do mundo e exerce o poder do seu cargo como nenhum outro mandatário do planeta. Não pensa duas vezes antes de impor normas que beneficiem os Estados Unidos. Só com o aumento de tarifas sobre produtos importados, os americanos elevaram a arrecadação a um patamar recorde, próximo, em algumas estimativas, da casa dos US$ 300 bilhões.
É tanto dinheiro que o presidente americano já disse mais de uma vez que tem a intenção de distribuir parte desses valores à população. A proposta é a de entregar a cada cidadão americano de baixa ou média renda algo em torno de US$ 2 mil. Só não levou a cabo essa ideia, por enquanto, porque foi alertado por especialistas sobre as consequências fiscais e inflacionárias que poderiam advir de uma medida dessa natureza.
Motivos para o tarifaço
Chefes das nações mais poderosas reclamam num primeiro momento, mas depois procuram se ajustar a essas decisões unilaterais. Inclusive o Brasil. As justificativas apresentadas por Washington contra nós são as mais variadas. Alegam ter feito investigações comerciais, especialmente com base na Seção 301, e relacionam os motivos.
A lista é grande. Só para citar alguns itens, é possível destacar protecionismo, práticas ambientais, punições recebidas pelas Big Techs e regras para o mercado digital. Há ainda a concorrência no comércio digital e nos serviços de pagamento eletrônico, área em que o avanço do PIX passou a ser visto por Washington como possível prejuízo a empresas americanas. Sem contar um dos pontos mais sensíveis dessa decisão, que é o comportamento do Judiciário brasileiro.
Química efêmera
Lula pensou dez vezes antes de visitar a Casa Branca para tentar eliminar ou reduzir algumas das tarifas impostas aos produtos brasileiros. Como Trump já havia ridicularizado certos chefes de Estado de maneira até grosseira, achou melhor esperar um momento mais adequado. O presidente brasileiro só se animou a negociar depois de o interlocutor americano dizer na ONU, em setembro de 2025, que, ao se esbarrarem por cerca de 20 a 30 segundos nos bastidores, tiveram uma “química excelente”.
Os fatos que se sucederam após esse encontro demonstraram que a conversa entre os dois não foi tão produtiva assim. Trump voltou a ameaçar com números assustadores para a economia do nosso país. Fala-se em uma taxação que poderia chegar a 37,5%, resultado da soma de uma sobretaxa de 25%, atribuída a práticas comerciais, com outros 12,5%, relacionados à alegada falta de combate ao trabalho forçado.
Os ataques chegaram aos ouvidos de Trump
Na primeira vez, Lula parece ter obtido bons dividendos eleitorais ao confrontar Trump. Discursava em oposição ao presidente americano, mas, na verdade, queria mesmo demonstrar ao eleitorado tupiniquim que era firme, defendia os interesses nacionais e não se dobrava ao “imperador”. É evidente que esses pronunciamentos saem do nosso quintal e chegam a Washington. E, pelo que tudo indica, não pegaram nada bem.
Lula aproveitou um convite de Macron para participar, na França, da reunião ampliada do G7. Embora o governo negue que esse tenha sido o objetivo principal, era impossível dissociar a viagem da expectativa de uma conversa, ainda que informal, com Trump. Os dois até se esbarraram, mas a conversa mesmo, que seria o ideal, não aconteceu. Na verdade, em vez de haver uma reconciliação, o caldo entornou de vez.
A cartilha do Itamaraty
Em ambientes diferentes, os dois presidentes se hostilizaram. Lula criticou duramente o governo americano. Em conversa informal com o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, captada durante o encontro, afirmou: “Eu não suporto o comportamento do governo americano”. Trump, por sua vez, disse que o Brasil havia se tornado um país politicamente difícil e perigoso. Como resolver uma desavença dessa proporção?
Está certo que, entre países, não há amizades, mas conveniências. Mesmo assim, esse comportamento não encontra respaldo na cartilha do Itamaraty da época de Rio Branco. O chanceler das Relações Exteriores foi tão habilidoso que, enquanto esteve à frente da diplomacia brasileira, entre 1902 e 1912, conseguiu a proeza de incorporar mais de 900 mil km² ao nosso território sem disparar um único tiro.
Feridas profundas
Rio Branco negociava, costurava alianças e sabia transformar interesses externos em ganhos para o Brasil. Fazia aproximações que nos beneficiavam, especialmente com os Estados Unidos. E fez história com a diplomacia brasileira.
Com esse comportamento beligerante, próprio de quem se preocupa mais com a disputa política e com as pesquisas de intenção de voto do que com a postura de um estadista, Lula talvez deixe feridas profundas, difíceis de serem cicatrizadas.
Seu adversário, Flávio Bolsonaro, percebeu a oportunidade e se antecipou. Enviou pedido a Trump para que não imponha essas tarifas pesadas ao Brasil. É quase certo que não seja atendido pelo presidente americano, mas obtém vantagens para seus objetivos políticos. Se conseguir, mérito para ele. Se não conseguir, a culpa será de quem arrumou a encrenca.
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