Cultura

O viés político e a mídia

Jornalistas devem ser imparciais, mas muitos revelam suas preferências políticas nas entrelinhas de suas análises

A declaração de viés ideológico não engana o leitor, mas exige um olhar crítico sobre as informações apresentadas - Imagem: Freepik
A declaração de viés ideológico não engana o leitor, mas exige um olhar crítico sobre as informações apresentadas - Imagem: Freepik
Reinaldo Polito

por Reinaldo Polito

Publicado em 24/04/2026, às 11h51


Alguns jornalistas tentam disfarçar. Rodopiam daqui e dali, mas, nas entrelinhas, em comentários sutis, acabam por revelar suas preferências políticas. Sem problema. Desde que consigam ser imparciais em suas análises, mostrando os fatos como de fato ocorreram, estão cumprindo o seu papel de bem-informar.

Da mesma forma, quem resolver declarar seu viés ideológico não estará enganando o leitor, pois todos terão consciência de que suas opiniões são tendenciosas. São aplaudidos por aqueles que pensam como eles e rechaçados por quem diverge de seu ponto de vista. Sempre foi assim e continuará sendo.

Armando Nogueira

Há um episódio marcante. Em 1990, assisti a um evento chamado “Câmera 90”. Foi um encontro bastante concorrido. O auditório do Hotel Maksoud Plaza estava lotado. Os palestrantes eram Armando Nogueira, Jô Soares, Flávio Gikovate e Belisa Ribeiro, mãe do Gabriel, o Pensador.

O mais aguardado de todos era Armando Nogueira. Fazia pouco tempo que ele havia deixado a direção de jornalismo da TV Globo. A plateia imaginava que, fora da emissora, Nogueira poderia fazer algumas revelações curiosas, contar, quem sabe, alguns segredos dos bastidores. Ele não decepcionou. Além de ser excelente orador, possuía invejável memória e espírito bem-humorado.

A úlcera

Um dos momentos mais hilários foi quando falou de uma úlcera salvadora. Disse que, por exercer o cargo mais importante na mais poderosa emissora de televisão, era motivo de inveja de muita gente. Por isso, para afastar os maus-olhados, inventou que possuía uma úlcera que não lhe dava um segundo de paz. Assim, sempre que aparecia alguém com aquele jeito de seca-pimenteira, reclamava da úlcera fictícia. Segundo ele, era um santo remédio.

O comentário mais impressionante que fez foi sobre as eleições de 1989. Nesse pleito, de um lado houve uma vantagem artificial da mídia para a vitória de Collor. Ao ser entrevistado pela GloboNews, Boni, que foi o todo-poderoso diretor da Globo, confirmou que a emissora, com suas edições, influenciou o resultado do pleito e favoreceu a vitória de Collor.

A maioria era petista

Na outra ponta tivemos o depoimento de Armando Nogueira. Revelou que, durante a campanha presidencial, como estava na direção de jornalismo da emissora, precisava ficar de olho nas mensagens dos repórteres. Como a maioria era partidária de Lula, vigiava todas as notícias. Comentou que, a cada instante, faziam de tudo para dar uma mãozinha ao petista.

Disse, por exemplo, que, quando Collor ia a Manaus para cumprir os compromissos de campanha, o fato era noticiado mais ou menos assim: "Collor chega a Manaus a bordo de um jatinho". Enquanto a chegada de Lula recebia este viés: "Lula chega a Manaus em cima da carroceria de um caminhão". Como se ele tivesse ido de São Paulo até o Norte do país sofrendo naquele transporte.

Acertava os rumos

Por isso, para acertar os rumos da campanha, refazia o texto para que os acontecimentos fossem noticiados sem desvirtuamentos. E dá para imaginar como o noticiário era manipulado para favorecer um ou outro candidato. Nem todos os órgãos de imprensa tinham um Armando Nogueira para vigiar as mensagens. Joaquim Nabuco já alertava para esse papel da imprensa:

Atrás do jornal, não vemos os escritores, compondo, a sós, seu artigo. Vemos as massas que o vão ler e que, por compartilhar dessa ilusão, o repetirão como se fosse seu próprio oráculo.

Tudo do mesmo jeito

Da época de Armando Nogueira para cá, a tendência continua a mesma. Cabe aos leitores de jornais e revistas, aos telespectadores, aos ouvintes de rádio e seguidores de blogs da internet ter um olhar crítico, para observar não apenas o que é divulgado pelo valor de face, mas, principalmente, as intenções que se escondem atrás de cada mensagem.

Por isso, é fundamental, para que o eleitor avalie corretamente, contar com uma imprensa com posições diversificadas. Enquanto lê em uma matéria opiniões que talvez favoreçam determinado candidato, ao lado, na mesma página, há outro texto mostrando qualidades do adversário. Cabe a quem lê buscar onde está a verdade. Esse é um bom princípio da democracia.