Cultura

Por que Lula e Bolsonaro conquistaram 60 milhões de votos?

Como a comunicação simples e natural de Lula e Bolsonaro atende às expectativas dos eleitores e gera resultados nas urnas

Analisando as virtudes e defeitos oratórios de Lula e Bolsonaro - Foto: Getty Images
Analisando as virtudes e defeitos oratórios de Lula e Bolsonaro - Foto: Getty Images
Reinaldo Polito

por Reinaldo Polito

Publicado em 03/07/2026, às 10h55


Fiz umas contas. Ao longo dos últimos anos, já publiquei mais de 200 textos analisando a comunicação de Lula e Bolsonaro. Provavelmente, escrevi mais sobre a oratória desses dois líderes políticos do que qualquer outro analista no país. Brinco que sou capaz de adivinhar o que eles vão dizer em seus pronunciamentos antes mesmo de proferirem a primeira frase.

O problema nesse tipo de análise é a contaminação ideológica das pessoas. Tanto assim que, em certo momento, resolvi desafiar os leitores. Produzi um texto com a consciência de que enfrentaria quase 100% de resistência. Avaliei as virtudes oratórias de Lula e as de Bolsonaro. Em seguida, relacionei os defeitos de cada um.

Um desafio aos leitores

Sabia que, ao falar das qualidades de um, seus adversários discordariam. Da mesma forma, ao mencionar os aspectos positivos do outro, encontraria resistência do lado oposto. De tal maneira que, ao encerrar o texto, os seguidores de um e de outro estariam na defensiva. Tinha consciência de que praticamente ninguém concordaria com a minha avaliação de que ambos são bons oradores.

Na conclusão, lancei o desafio: se você não concorda que Lula e Bolsonaro são bons oradores, suba num palanque e conquiste 60 milhões de votos. Ou seja, aquele que se mostra crítico e julga falar melhor que os dois políticos provavelmente não teria os predicados necessários para obter resultado tão expressivo.

O conceito da naturalidade é antigo

A comunicação simples dos dois líderes políticos vai ao encontro das expectativas e dos anseios dos eleitores. Cometem erros gramaticais, expressam-se quase sempre com pouca elegância, não seguem os conceitos mais elementares da retórica, mas conseguem o que mais desejam: o voto nas urnas.

Não é de hoje que estudiosos da comunicação defendem uma linguagem solta, leve, natural e, ao mesmo tempo, contundente. Poucos talvez tenham ouvido falar de Brunetto Latini. Esse político e literato viveu aproximadamente entre 1220 e 1294. Entre os seus feitos está o de ter influenciado um dos maiores nomes da literatura universal, Dante Alighieri.

A influência da palavra

Latini foi contemporâneo e mestre de Dante. Durante o exílio, compôs A Retórica, obra em que traduz e comenta trechos do De inventione, de Cícero, sobre a arte da retórica. Movido por um espírito democratizante, traduziu Cícero do latim para o vernáculo florentino, a língua do homem comum. Esse gesto acabou por influenciar o próprio Dante, que depois escreveria algumas de suas principais obras em registro mais próximo da língua de sua cidade.

O ponto central dessa discussão é antigo e permanece atual: a palavra pode esclarecer ou confundir; pode aproximar ou afastar; pode servir à verdade ou apenas ao brilho vazio do discurso. Cícero já advertia para os riscos de uma eloquência separada da sabedoria. Platão também criticava a retórica quando ela se afastava da verdade e se limitava ao jogo de convencimento.

Fora da política e da filosofia

Essa breve volta ao passado serve apenas para contextualizar o tema. O que importa mesmo é a defesa, presente em diferentes épocas, de uma comunicação mais natural, mais clara e mais próxima de quem ouve ou lê.

Quem pensa, entretanto, que essa discussão se restringe aos embates políticos e às contendas filosóficas se engana. O debate chegou também ao mundo jurídico. Nas sentenças judiciais, o “juridiquês” tem sido cada vez mais combatido. O mundo jurídico procura afastar citações em latim, palavras rebuscadas e expressões de difícil entendimento para o público leigo.

A cartilha da AMB

O ex-ministro Luís Roberto Barroso foi um combatente ferrenho dessa linguagem rebuscada. É curioso observar este trecho extraído da cartilha lançada pela Associação dos Magistrados Brasileiros, intitulada O Judiciário ao alcance de todos:

“Afigura-se até mesmo ignominioso o emprego da liturgia instrumental, hipótese em que a incompreensão reina. A oitiva dos litigantes e das vestigiais por eles arroladas acarreta intransponível óbice à efetiva saga da obtenção da verdade real.”

Veja agora, em linguagem simples, um trecho da apresentação do livreto, que sintetiza o esforço da Associação em simplificar a linguagem para o cidadão:

“É desafiadora a iniciativa da AMB de alterar a cultura linguística dominante na área do Direito e acabar com textos em intrincado juridiquês. A Justiça deve ser compreendida em sua atuação por todos e especialmente por seus destinatários. Compreendida, torna-se ainda mais imprescindível a consolidação do Estado Democrático de Direito.”

O que importa é o resultado

Se deseja que os ouvintes ajam de acordo com a sua vontade, procure utilizar uma linguagem que todos possam entender. Sem erros, sem inconsistências, sem descuido. Mas com clareza suficiente para chegar a quem realmente importa: a pessoa a quem você dirige a palavra.