Túnel Santos-Guarujá

Projeto de acessos ao túnel Santos-Guarujá vira alvo de impasse entre Porto e Governo de SP

Simulações indicam que o projeto atual pode causar perdas de até 50% na capacidade de acesso rodoviário ao terminal

Análise técnica do pleito da Santos Brasil está em andamento, com escavações do túnel previstas para 2027 - Imagem: Divulgação / Governo de SP
Análise técnica do pleito da Santos Brasil está em andamento, com escavações do túnel previstas para 2027 - Imagem: Divulgação / Governo de SP

Redação Publicado em 29/05/2026, às 16h29


Uma das maiores discussões de infraestrutura do país acaba de ganhar um capítulo bilionário nos bastidores. A Santos Brasil, maior operadora de contêineres do país, acendeu o sinal de alerta e solicitou formalmente uma alteração no traçado das obras do futuro túnel Santos-Guarujá. A companhia alega que o desenho atual dos acessos viários pode sufocar a logística do Tecon Santos, o maior terminal do setor no Brasil, gerando prejuízos que podem alcançar a casa das dezenas de bilhões de reais ao longo dos anos.

O pedido de socorro e as propostas de mudança foram protocolados formalmente à Autoridade Portuária de Santos (APS), à Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) e à Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq).

A operadora fez questão de destacar que apoia totalmente a construção do túnel, mas critica severamente a engenharia dos acessos terrestres planejados para a saída da estrutura.

Os números do impacto: simulações projetam perdas gigantescas

Para embasar o pedido, a Santos Brasil realizou simulações e cálculos preliminares sobre o impacto que o projeto original teria na rotina do porto. Os resultados detalhados são alarmantes:

  • Bloqueio logístico: Risco de perda de até 50% da capacidade do acesso rodoviário que abastece o terminal;
  • Queda de produtividade: Uma redução permanente de apenas 9,5% no ritmo operacional geraria um desequilíbrio financeiro imediato de R$ 1 bilhão;
  • Prejuízo diário: Qualquer interrupção forçada nas vias durante as obras pode custar R$ 2,8 milhões por dia em lucros frustrados;
  • Risco ao plano de expansão: O desenho atual do túnel invade a área do projeto "Prainha", planejado para ampliar a capacidade do Tecon Santos em 33% e absorver um fluxo que deve saltar dos atuais 2.560 caminhões diários para picos de 4.200 carretas por dia.

"A empresa entende a relevância e a legitimidade do empreendimento, mas propõe alternativas para melhoria do traçado na saída do túnel de forma a preservar as condições operacionais, logísticas e regulatórias indispensáveis ao funcionamento eficiente do Tecon Santos", declarou a Santos Brasil por meio de nota oficial.

Um gigante que opera no limite

O peso da reclamação se justifica pelo tamanho do Tecon Santos na economia nacional. Sozinho, o terminal movimentou 16% de todos os contêineres do Brasil no ano passado e quase metade de todo o volume que passa pelo complexo santista. Operando 24 horas por dia, o espaço funciona hoje muito perto do seu teto regulatório, registrando uma taxa média de ocupação de 90%. A empresa argumenta que a eliminação de faixas de rolamento e a criação de novas rotatórias e interseções próximas à entrada vão gerar gargalos e atrasos em cascata para o comércio exterior.

Governo Tarcísio avalia o pleito

A construção do túnel Santos-Guarujá é capitaneada por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP) dividida entre o Governo Federal e o Estado de São Paulo. O projeto foi leiloado no segundo semestre do ano passado e arrematado pelo consórcio formado pela empresa portuguesa Mota-Engil e pela gigante chinesa CCCC, que investirão R$ 6 bilhões para erguer a travessia submersa de 1,5 quilômetro.

Procurada para comentar as críticas da operadora portuária, a Secretaria de Parcerias em Investimentos do Governo de São Paulo confirmou que recebeu os documentos e informou que o pleito "está sendo analisado tecnicamente".

A gestão do governador Tarcísio de Freitas ressaltou que o projeto original passou por audiências públicas com especialistas antes de ir a leilão, mas ponderou que contribuições formais seguem em avaliação antes do início das escavações, agendado para 2027. O grupo Mota-Engil preferiu não se manifestar.