Explore como o gesto de 'OK' e outros sinais podem ser interpretados de formas distintas em várias partes do mundo
Reinaldo Polito Publicado em 20/02/2026, às 11h45
Dois homens se beijando! Houve época em que ver dois russos heterossexuais se beijando na boca causava perplexidade em pessoas de países não familiarizados com esse tipo de comportamento. Com o tempo, principalmente por causa das imagens que circulam pelo mundo por meio do cinema e da televisão, esse e outros hábitos passaram a ser vistos com mais naturalidade.
Há publicações que fazem verdadeiro alarmismo quando discutem a expressão corporal e o significado dos gestos. Exageram. Alertam para os perigos de movimentos simples das mãos e de outros gestos serem interpretados de forma equivocada, como se uma simples indicação corporal fosse suficiente para inviabilizar negociações ou relações profissionais.
Você acha que o representante de uma empresa turca deixaria de fechar negócio porque o interlocutor fez o sinal de “OK”, encostando a ponta do dedo indicador no polegar? Provavelmente, não. Por mais que o gesto possa ser considerado ofensivo em determinados ambientes sociais, numa negociação tende a ser interpretado com naturalidade, apenas como deslize de quem não está familiarizado com os hábitos daquele país.
Como se fosse outra língua
Gestos são formas de comunicação não verbal cujos significados variam conforme o país, o ambiente e a situação. O que é considerado um sinal comum e inofensivo em um lugar pode assumir outro sentido em contextos distintos. Ainda assim, essas diferenças raramente são, por si sós, prejudiciais.
No mundo globalizado em que vivemos, os contatos cada vez mais frequentes entre profissionais de diferentes nações favorecem a compreensão dos significados dos gestos dentro do cenário em que são realizados. Mesmo que os riscos sejam pequenos, conhecer essas variações tornou-se um conhecimento relevante, quase como aprender uma nova língua de convivência.
Diferentes sentidos do “OK”
Começando pelo gesto de “OK”. Nos Estados Unidos e no Brasil, ele é um sinal positivo, indicando que está tudo bem. Em alguns contextos da Turquia e da Grécia, entretanto, pode ser interpretado como ofensivo, com conotações vulgares ou relacionadas à intimidade sexual. Na França, pode indicar “zero” ou “nada”, enquanto no Japão costuma ser associado a dinheiro.
Outra diferença aparece no gesto de levantar o polegar. No Brasil, é amplamente aceito como sinal de aprovação. Em determinadas circunstâncias sociais, como em partes do Oriente Médio ou da África, pode ser interpretado de forma negativa ou ofensiva. Já na Alemanha e no Japão, esse gesto também pode indicar números, como “um” e “cinco”, de acordo com a convenção local.
A figa e os chifres
O gesto de fazer “chifres”, com os dedos indicador e mínimo levantados, também ilustra essas variações de significado. No Brasil e na Itália, pode indicar que alguém está sendo traído. Em outros ambientes, como em eventos esportivos nos Estados Unidos, o mesmo gesto assume sentido completamente distinto, sendo usado como símbolo de apoio a equipes.
Há ainda o exemplo da mão em forma de figa, que no Brasil é tradicionalmente associada à boa sorte. Em países da região mediterrânea, entretanto, pode adquirir sentidos diferentes, inclusive de caráter obsceno, dependendo da situação e da intenção comunicativa.
Quem manda é o contexto
No cenário internacional atual, poucos se ofendem a ponto de tomar decisões drásticas por causa de um gesto isolado. Quando ocorre algum equívoco, a tendência é interpretá-lo como falta de familiaridade com os hábitos locais, e não como desrespeito intencional.
Um exemplo clássico está no movimento da cabeça. Em grande parte do mundo ocidental, balançar a cabeça lateralmente significa “não”. Em países como Bulgária e em regiões da Grécia, porém, esse mesmo movimento pode ser entendido como afirmação, o que surpreende muitos visitantes.
Estudos clássicos sobre linguagem corporal, como os de Roger Axtell, já apontavam que os gestos variam amplamente de significado conforme o contexto em que são realizados, sem que isso, na maioria das vezes, gere conflitos reais nas interações.
A chave para uma comunicação eficaz entre pessoas de diferentes origens está na sensibilidade e na disposição de compreender o outro. Gestos fazem parte de um conjunto mais amplo que envolve palavras, expressões faciais e a situação em que a interação ocorre. Por isso, mesmo quando provocam estranhamento, raramente comprometem relações de forma significativa.
Na verdade, o risco maior ocorre dentro do próprio país, pois, como as pessoas estão familiarizadas com o significado dos gestos, não há desculpa para equívocos de interpretação.