Como a tragédia grega e a arte moderna abordam o sofrimento e a compaixão

por Marlene Polito
Publicado em 17/02/2026, às 12h14
Por que algumas dores nos comovem e outras nos afastam?
Por que há sofrimentos diante dos quais nos detemos quase sem perceber, enquanto outros nos fazem mudar de página, de canal, de assunto?
Todos nós já experimentamos isso. Há dores que nos alcançam de imediato, sem pedir explicação. Outras, igualmente graves, provocam incômodo ou afastamento. Não se trata de falta de sensibilidade, mas de um limite do olhar: uma fronteira invisível entre o que conseguimos sustentar e aquilo de que precisamos nos proteger.
Talvez seja aí que a arte comece a nos interessar de verdade. Não quando oferece respostas prontas ou consolo, mas quando nos obriga a permanecer um pouco mais diante da dor do outro. Quando impede o desvio fácil e transforma o sofrimento em experiência, não em espetáculo.
Ao longo da história, artistas de épocas muito distintas se ocuparam dessa mesma pergunta. Uns buscaram ensinar a olhar a dor com contenção; outros expuseram sua violência sem mediações; alguns insistiram em sua repetição quase insuportável. Em comum, todos testam os limites do nosso envolvimento: até onde somos capazes de nos deixar afetar?
Compaixão como aprendizado do olhar

Durante muito tempo, a arte não buscou provocar reações imediatas diante da dor. Ela ensinou, antes de tudo, a permanecer. Diante do sofrimento, não se tratava de julgar, explicar ou resolver, mas de sustentar o olhar sem fuga.
Em A Descida da Cruz, de Rogier van der Weyden, a dor é contida e organizada. O corpo de Cristo não despenca; é amparado. Os gestos são comedidos, quase silenciosos. Nada grita. A intensidade nasce do tempo que a imagem exige do observador.
O sofrimento não aparece como choque, mas como algo que precisa ser sustentado coletivamente. Há, aí, uma pedagogia silenciosa: sentir não é reagir, é ficar.
Do sagrado ao humano

Esse aprendizado começa a se deslocar quando a dor deixa de estar protegida por uma promessa de redenção. O sofrimento já não salva nem purifica. Ele passa a ser humano: injusto, desigual, sem compensação.
É nesse ponto que a tragédia grega inaugura uma virada decisiva. Em Eurípides, o sofrimento não está mais organizado para ensinar serenidade, mas para desestabilizar.
Medeia encarna essa ruptura. Estrangeira, sem proteção ou alianças, abandona tudo, inclusive a própria família, para ajudar Jasão a conquistar poder. Quando é descartada em nome de um cálculo político, perde não apenas o amor, mas qualquer lugar possível no mundo que ajudou a construir.A compaixão já não nasce da contenção, mas do impasse que a tragédia nos impõe.
O nó mais perturbador surge quando Medeia mata os próprios filhos, sendo uma mãe afetuosa. O gesto não nasce da indiferença, mas da consciência plena do que está prestes a destruir. Ao retirar os filhos de um mundo que os usaria como instrumentos de um acordo que a exclui, atinge Jasão e, ao mesmo tempo, aniquila o que lhe restava. Aqui, a compaixão deixa de confortar. Ela fere.
Quando a compaixão acusa

Depois da tragédia, a dor deixa de ser apenas destino humano e se torna responsabilidade histórica. Em Goya, não há promessa de redenção. Há denúncia.
Nos Desastres da Guerra, o sofrimento irrompe sem mediação: corpos mutilados, vítimas anônimas, violência exposta. A imagem não convida à contemplação; confronta. A arte deixa de ensinar a sustentar o sofrimento e passa a perguntar quem é responsável por ele. Olhar passa a ser um ato moral. Não olhar, também.
Quando a dor permanece
Em Candido Portinari, a dor já não explode. Elapermanece. A violência deixa o campo da guerra e se instala na vida cotidiana. Nos retirantes, nas mães com filhos inertes, o sofrimento não é exceção, mas condição.
Portinari não constrange pelo choque, mas pelo tempo. A dor se acumula, repete-se, cansa. E é justamente nesse cansaço que exige outro tipo de olhar: menos imediato, menos defensivo, mais disposto a reconhecer que certas dores não passam.
Entre empatia e exaustão
Depois desse percurso, talvez a pergunta inicial retorne com outro peso. Se aprendemos a olhar a dor, se fomos desestabilizados por ela, se fomos acusados e depois confrontados com sua permanência, o que acontece conosco, hoje?
Vivemos cercados por imagens de sofrimento, misturadas à distração, à publicidade, ao entretenimento. Não é que não vejamos; vemos demais. Para seguir vivendo, o olhar aprende a deslizar.
A compaixão contemporânea oscila entre empatia e exaustão. Surge, recua, reaparece de modo instável. Não por indiferença, mas por saturação. E talvez seja por isso que certas obras ainda nos alcançam: porque interrompem o fluxo e nos obrigam a ficar um pouco mais.
No fim, a compaixão não aparece como virtude tranquila nem como solução moral. Ela é frágil, imperfeita, às vezes insuficiente, e ainda assim necessária. Não para salvar ou redimir, mas para que não nos tornemos completamente estranhos à dor do outro.
Sentir nunca foi confortável. Desviar o olhar, sim.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]
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