Explorando como os mitos antigos ainda influenciam nossas vidas e relações contemporâneas
Marlene Polito Publicado em 31/03/2026, às 10h37
Os mitos não passaram
Os mitos não pertencem ao passado.
Pertencem ao que em nós não passou.
Não são histórias antigas, confinadas a um tempo remoto, mas formas simbólicas de organizar aquilo que permanece: desejos, medos e conflitos, forças pelas quais o homem procura dar conta da própria vida, buscando autonomia, querendo vencer e, sobretudo, tentando ir além dos próprios limites.
Mudam os cenários, transformam-se os costumes, mas certas estruturas continuam a se repetir. Entre esses mitos, um permanece particularmente revelador.
Pigmalião e Galateia.
Pigmalião, escultor de reconhecida habilidade, vivia desiludido com as mulheres de sua época. Não encontrava nelas aquilo que julgava essencial. Em vez de insistir na busca, tomou outro caminho: decidiu criar.
Esculpiu em marfim a figura de uma jovem de beleza tão perfeita que parecia respirar. Encantou-se com a própria obra e passou a tratá-la como viva: acariciava-a, oferecia-lhe presentes.
Durante um festival em honra a Afrodite, pede à deusa alguém semelhante àquela figura. Afrodite, sensibilizada, vai além: dá vida à estátua. Galateia respira, move-se, corresponde. À primeira vista, trata-se de uma história de amor. Talvez não seja. É um dos mitos mais inquietantes que temos.
O fascínio pelo ideal, e o risco de amar o que não existe
Pigmalião não ama uma mulher. Ama uma projeção. O que exatamente ele amou? A mulher ... ou a ideia que fez dela? Há, nesse gesto, algo que ultrapassa o fascínio pela beleza. Ele não encontra. Ele fabrica. E esse detalhe muda tudo.
Ao rejeitar o mundo concreto e optar pela criação de um ideal, o escultor elimina o imprevisto. Como criação ideal, sua Galateia não contraria, não surpreende, não impõe limites. É perfeita porque é previsível.
Talvez por isso seduza. Criamos versões idealizadas, do outro e de nós mesmos. E nos frustramos quando a realidade não corresponde. É nesse ponto que o mito deixa de ser antigo.
O desejo de moldar o outro
Esse é, talvez, o aspecto mais incômodo. Pigmalião não apenas ama, ele cria. Ele molda. E esse gesto ecoa de forma silenciosa no cotidiano: nas relações em que um tenta “lapidar” o outro, nas expectativas que, sob aparência de cuidado, sufocam, na tentativa constante de transformar alguém em algo que ele não é.
A psicologia reconhece esse movimento no chamado “efeito Pigmalião”: as expectativas que projetamos sobre o outro podem influenciar, de fato, a maneira como ele age.
Mas o mito sugere algo mais delicado. Nem toda tentativa de moldar nasce do cuidado. Às vezes, nasce da dificuldade de aceitar.
Em muitas relações, o amor se confunde com um projeto silencioso de transformação: corrigir, ajustar, lapidar, como se o outro fosse matéria em estado bruto, à espera de acabamento.
Mas até que ponto ainda é amor quando o outro precisa ser redesenhado?
Quando a obra ganha vida, e escapa do criador
No mito, Galateia ganha vida. Mas… e depois? O criador ainda controla a criatura? Ou ela passa a existir por si? Essa pergunta atravessa não só relações pessoais – pais e filhos, mestres e aprendizes –, mas a própria ideia de criação. O que acontece quando aquilo que concebemos deixa de nos pertencer?
Séculos depois, essa questão reaparece sob nova forma nas mãos de George Bernard Shaw. Em Pygmalion, transplantado para o cinema em My Fair Lady, já não é o mármore que se transforma, mas a linguagem. O professor Higgins aposta que pode moldar uma jovem humilde, Eliza Doolittle, ensinando-lhe a falar como uma dama.
A princípio, o gesto parece o mesmo: dar forma ao outro. Mas aqui surge uma ruptura decisiva. Mais do que uma história de transformação social, a peça revela algo mais profundo: como passamos a ocupar um lugar no mundo. Eliza não muda apenas a forma de falar. Muda a forma como é vista, e como passa a se ver. A linguagem não apenas descreve. Ela constrói.
Higgins “esculpe” Eliza palavra por palavra. Mas, ao final, o que emerge já não pode ser controlado.
Galateia nasce para corresponder. Eliza aprende e reage. Ganha voz e, com ela, autonomia. Pela primeira vez, a criação não apenas ganha vida. Ela responde. Já no século XX, Salvador Dalí leva essa ruptura ainda mais longe.
Em Galateia das esferas, a figura não se apresenta como unidade, mas como fragmento. O rosto existe e, ao mesmo tempo, dissolve-se.
Se Pigmalião buscava a forma perfeita, e Shaw revelava a voz que emerge dessa forma, Dalí parece sugerir algo ainda mais inquietante: não há forma final. O que vemos nunca é inteiro. São partes, aproximações, tentativas de entender.
O que permanece
Do mármore do mito à palavra de Shaw e à fragmentação de Dalí, Galateia atravessa o tempo revelando menos sobre a mulher criada e mais sobre o olhar de quem a contempla.
Hoje, esse movimento se intensifica. Vivemos cercados por imagens construídas, versões editadas, identidades cuidadosamente montadas. Nas redes sociais, cada perfil pode ser uma Galateia: ajustada, filtrada, controlada.
Mas o real, como no mito, insiste em escapar. No fim, talvez o que nos incomode não seja o outro, mas aquilo que ele insiste em não ser.