Cultura

Zema foi oportunista ao falar de Flávio Bolsonaro?

Romeu Zema, ex-governador de Minas, critica Flávio Bolsonaro, mas sua postura gera controvérsias entre os aliados da direita

Zema adota uma postura agressiva contra Bolsonaro, mas sua estratégia pode afastar eleitores - Foto: Rafael Vieira / DP Foto
Zema adota uma postura agressiva contra Bolsonaro, mas sua estratégia pode afastar eleitores - Foto: Rafael Vieira / DP Foto
Reinaldo Polito

por Reinaldo Polito

Publicado em 15/05/2026, às 13h51


A divulgação do áudio envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, sobre valores ligados ao filme sobre seu pai, desencadeou uma onda de reações rápidas, muitas delas formuladas antes que os fatos fossem plenamente esclarecidos.

Como Lula enfrenta índices elevados de desaprovação e dificuldades nas pesquisas, com indicadores oscilando a cada levantamento, sua turma aguardava com ansiedade uma espécie de bala de prata para reverter a situação. Estava difícil encontrar um fato que pudesse ajudar na campanha. A divulgação do áudio foi uma bênção.

Zema chegou batendo

Muitos estranharam a atitude de Romeu Zema. Embora seja concorrente do candidato do PL, esperava-se certo comedimento em seus pronunciamentos. Qual o quê! O ex-governador mineiro foi dos primeiros a vociferar. Sem meias palavras, bateu da medalhinha pra cima:

“Flávio Bolsonaro, ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa. É preciso ter credibilidade para mudar o Brasil.”

Eduardo ficou indignado

O irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro, ficou indignado com esse posicionamento: “Nem sequer ouviu o outro lado. Bastou um par de horas para a união da direita, o potencial vice, se aproveitar e largar essa acusação sem fundamentos. Não houve desvio de dinheiro, Lei Rouanet ou recursos públicos. Não seja tão baixo, tão vil”.

Sem contar que o pai de Vorcaro, Henrique Moura Vorcaro, preso nesta quinta-feira em nova fase da Operação Compliance Zero, doou R$ 1 milhão para o Novo em Minas Gerais, em 2022. Foi um dos maiores doadores do partido em Minas. Essas informações mostram que, no mínimo, Zema foi precipitado em suas acusações.

Quem acompanha as falas do ex-governador mineiro sabe que ele faz acusações a Bolsonaro e sua família desde a época em que este ocupava o cargo de presidente. Ninguém duvida de que sua tentativa seja a de desqualificar seus adversários para ocupar algum espaço nessa esteira, subir nas pesquisas e viabilizar sua campanha.

Atirando em todos os lados

Embora seja considerado um bom gestor, suas iniciativas políticas possuem objetivos oportunistas tão evidentes que dificilmente passam despercebidos. Nos últimos tempos, tem girado sua metralhadora verbal para todos os lados. Critica ministros do STF, petistas e concorrentes do mesmo segmento ideológico. Julga que assim poderá conquistar eleitores suficientes para ter mais chances nas eleições.

A questão central, porém, é: conseguirá dessa forma conquistar os eleitores de Bolsonaro? Agindo assim, o mais provável é que crie resistências ainda mais acentuadas ao seu nome.

Parecia de oposição

A história possui vários capítulos. Já em 17 de novembro de 2022, começou a colocar as manguinhas de fora. Em entrevista concedida à Rádio Super 91,7 FM, de Belo Horizonte, mostrou uma face que aos poucos seria cada vez mais visível. Sem nenhuma necessidade, fez o discurso daqueles que sempre se opuseram a Bolsonaro:

“O governo federal e a gestão do presidente Bolsonaro não foram felizes na comunicação. O próprio presidente, que tem boas intenções, muitas vezes em seus discursos acabou não sendo feliz. De certa maneira, deixando as pessoas meio que sem norte. Durante a pandemia, a comunicação do governo federal deixou a desejar. Quando você está lidando com algo que não conhece, é bom não desprezar”.

Crítica sem fundamento

Esse foi só um aquecimento. Logo no início das investigações e decisões judiciais envolvendo Bolsonaro, Zema disfarçou uma defesa, mas sempre com o freio de mão puxado: “Espero que a justiça seja feita e que ele recupere seus direitos políticos”. Muito diferente do que disse, por exemplo, Tarcísio Gomes de Freitas: “Bolsonaro é a principal liderança política do Brasil, e assim seguirá. Sabemos que a verdade prevalecerá e sua inocência será comprovada”.

Com o tempo, as críticas foram se acentuando. Em setembro de 2023, Zema cutucou Bolsonaro a respeito de parentes na administração: “Em Minas Gerais, apesar de nós termos 320 mil funcionários públicos, eu não tenho nenhum parente. Então, também temos aí uma diferença. Família para lá, negócios e carreiras para cá. São diferenças”. Esse ataque foi rechaçado por Eduardo Bolsonaro com uma simples frase: “Fomos eleitos”.

Como se vê, Zema não poderia mesmo ser um vice ideal para Flávio. Agora, então, com esse oportunismo eleitoral, as chances de uma composição ficam praticamente descartadas. Somente em eventual segundo turno é que as armas poderão ser baixadas para enfrentarem um adversário comum, o PT. Até lá, muitas farpas serão atiradas.