Cultura

Fogo amigo na pré-candidatura de Flávio Bolsonaro

Entenda as tensões e expectativas em torno de Flávio Bolsonaro na presidência do Brasil

Flávio Bolsonaro enfrenta críticas e desafios enquanto se prepara para a corrida presidencial deste ano - Foto: Saulo Cruz / Agência Senado
Flávio Bolsonaro enfrenta críticas e desafios enquanto se prepara para a corrida presidencial deste ano - Foto: Saulo Cruz / Agência Senado
Reinaldo Polito

por Reinaldo Polito

Publicado em 09/01/2026, às 15h56


Por que há fogo amigo na pré-candidatura de Flávio Bolsonaro?

Jair Bolsonaro provocou um grande alvoroço na política brasileira ao indicar o filho, Flávio Bolsonaro, para concorrer à Presidência da República este ano. Em carta escrita de próprio punho, deixou claro, sem margem para dúvida, que o Zero 1 é o escolhido. “Habemus papam, pero no mucho.” A notícia foi bem recebida por uns e contestada por outros.

Nos últimos tempos, houve verdadeira romaria à casa de Bolsonaro, onde cumpria medidas restritivas. Só entravam ali pessoas da família e medalhões da política. Era um pessoal que queria prestar solidariedade a ele. Sim, claro. Mas, no fundo, o que desejavam mesmo saber era quem ele indicaria para disputar a Presidência.

O “homem” é quem manda

Os comentários eram quase unânimes. Ele é quem deve apontar o nome, porque detém o maior capital político conservador do país. Alguns ainda completavam dizendo que essa força ficou evidenciada no crescimento do PL a partir do seu nome.

Na verdade, faziam essa afirmação porque alimentavam a esperança de que seus preferidos recebessem a “bênção”. A maioria desejava alguém simpático ao sistema, um político capaz de transitar sem conflitos com o mercado financeiro, o Centrão, parte do Judiciário e outros segmentos que, no fundo, preferem manter o domínio do poder como está.

Tiraram o pirulito da boca

Pelo jeito, muita gente se surpreendeu com o nome “ungido”. Parte daquela turma que defendia que a última palavra deveria ser dele passou a impor condicionantes. O governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas, era visto como opção ideal por setores que buscavam um candidato de ampla aceitabilidade.

O detalhe é que Tarcísio jamais declarou disposição de concorrer à Presidência. Em todas as oportunidades, reafirmou fidelidade a Bolsonaro e a intenção de disputar a reeleição ao Palácio dos Bandeirantes. Ainda assim, bastidores são bastidores, e havia quem tratasse sua candidatura como certa.

O que está por trás?

Quem contesta o nome de Flávio, quase sempre, recorre a um sofisma. Afirma, por exemplo, que ele está muito atrás de Lula nas pesquisas do primeiro turno. Isso pode ser verdade em determinados cenários, mas frequentemente omitem os números do segundo turno. Falam de rejeição, mas deixam de lado a rejeição do próprio Lula, que também é elevada. E há um aspecto que, nos bastidores, eles mesmos comentam com ironia: a “boquinha” que tanto ansiavam, espaço, influência, poder de decisão, poderia ficar mais distante do que imaginavam.

A partir do lançamento do nome, Flávio passou a dar entrevistas e a participar de programas de grande audiência, como o de Ratinho, no SBT. Em seus pronunciamentos, demonstrou serenidade e um raciocínio bem organizado para responder a perguntas capciosas. Não foge de questões delicadas. Costuma contextualizá-las de tal forma que reduz as brechas para a réplica. Os anos de embates no Senado, enfrentando adversários duros e sendo alvo de acusações que atingiam o pai, deram a ele uma musculatura que tende a ser útil em campanha.

Caminho pedregoso

Enquanto isso, o principal adversário terá um caminho mais espinhoso. Lula, apesar da experiência extraordinária na labuta política, não terá uma trilha tranquila. Além do desgaste provocado por episódios recentes que respingam em pessoas próximas, terá de lidar com a pressão crescente sobre sua histórica proximidade com o chavismo.

Com a prisão de Maduro pelos Estados Unidos, a imagem negativa do “companheiro” ditador pode ser associada a Lula com facilidade. A oposição já se prepara para explorar o assunto sem descanso. Será um bombardeio duro de contornar, justamente quando as campanhas estiverem fervilhando. E há ainda outro problema no horizonte, o Banco Máster. Parece que vai sair muita fumaça dessa fogueira.

Por tudo isso, é compreensível que Bolsonaro considere ter acertado na escolha. Indicou uma pessoa de sua confiança, alguém que, no seu entendimento, tende a manter as diretrizes do campo que ele lidera. Quanto ao desfecho, como deve ser, caberá ao eleitor julgar se o nome é bom ou não e escolher, livremente, o presidente que deseja. É assim, goste-se ou não do resultado, que funciona a democracia.