Muitos que tentam reviver momentos felizes se decepcionam ao encontrar amigos e lugares transformados, o que resta das lembranças?

por Reinaldo Polito
Publicado em 03/10/2025, às 08h41
Que tal voltar para casa? Não seria uma boa visitar o lugar onde viveu os anos mais felizes da sua vida? Quando pensa naquela época, vêm à lembrança os amigos queridos, as ruas que se transformavam em cenário para as brincadeiras ingênuas. Também não dá para esquecer da sorveteria, da padaria, da quitanda. Só de pensar nesse tempo, o coração fica apertado, dá uma saudade tão grande que até dói.
Se eu disser que talvez seja melhor continuar com essas imagens na cabeça a voltar de verdade àqueles momentos de outrora, talvez não concorde comigo. Sim, esse período marcante foi responsável por grandes alegrias. Revivê-lo poderia ser um resgate da felicidade. Por que não o reencontrar?
Quase todos se decepcionam
Mesmo que a infância ou a juventude tenham sido difíceis, e quase sempre foram, essas fases deixaram marcas profundas, com instantes de realizações e sonhos que em muitos casos nunca se concretizaram. Como a mente, especialmente a das crianças, pode vislumbrar o que desejar, os rumos inesperados da vida frequentemente impediram a realização dessas aspirações.
Não são poucos os que cedem ao impulso e decidem retornar para reviver as experiências doces. Quase todos, entretanto, se decepcionam. Descobrem que a maioria dos amigos já não mora mais ali. Os poucos que permaneceram estão diferentes, já não são as mesmas pessoas. Em muitos casos, são quase estranhos.
Não são as mesmas pessoas
Eles envelheceram. Falam de uma realidade tão distante que os tornam verdadeiros desconhecidos. Riem de brincadeiras que parecem sem graça. O que desejam não está em sintonia com quem os visita. Enfim, o jeito de ser e o gosto pela vida são de pessoas transformadas.
Bem, as pessoas mudam mesmo, mas os lugares deveriam permanecer mais ou menos iguais. Ao contrário, estão ainda mais alterados que os próprios moradores. Sabe aquele campinho de terra batida onde a garotada jogava bola todos os dias? Cedeu lugar a prédios e casas.
Não sobrou nem a sorveteria
A sorveteria, que era passada de geração em geração, deixou de existir. Em seu lugar funciona uma loja de consertos de celulares. O armazém também desapareceu. No lugar, há agora uma loja de artigos de pescaria.
Espera um pouco, nem tudo poderia ter mudado, uma escola não acaba de uma hora para outra. Certo, não desapareceu, mas não é mais a mesma. A quadra de esportes deu espaço a novas salas de aula. Até o portão principal de entrada está em outra rua. Que pena, quase nada restou para contar a história.
Um livro e um filme
Esse sentimento de desencanto foi descrito por Thomas Wolfe no livro You can’t go home again (“Não se pode voltar de novo para casa”). O enredo é instigante: um escritor narra seus anos de juventude, tempos inesquecíveis e agradáveis. Tomado pela própria narrativa, resolve regressar ao local para reencontrar pessoas com quem havia convivido. A visita, no entanto, resulta em frustração, pois nada mais era como se lembrava. A história guardada na memória, e depois transportada para o livro, revelava-se mais fascinante do que a realidade presente.
Quem assistiu ao filme As confissões de Schmidt, com Jack Nicholson, também se lembrará da tentativa de resgatar o que ficou para trás. O personagem, um executivo recém-aposentado, acreditava que ainda poderia fazer parte da empresa onde trabalhara por toda a vida. Supôs que, ao voltar, seria recebido de braços abertos.
Só uma foto antiga da sua turma
Assim que chegou, porém, percebeu o contrário. O novo ocupante de seu cargo, atarefado com os afazeres, o atendeu de maneira apressada, demonstrando incômodo com sua presença. O tratamento frio foi suficiente para deixá-lo consciente de que aquele já não era o seu lugar.
Para piorar, pouco depois perdeu a esposa. Sozinho, sem ninguém com quem conviver, caiu na estrada e começou a visitar os lugares que haviam marcado sua trajetória. Descobriu que a casa de infância já não existia. No terreno agora havia uma revendedora de pneus. Ao tentar reencontrar a escola, achou tudo modificado. A única recordação que encontrou foi uma foto antiga de sua turma de formandos. Sentiu-se sem chão: já não tinha passado e lutava para construir um presente.
Será que vale a pena?
Como quase todos nós guardamos a sensação de que os tempos vividos foram melhores que o presente, é preciso cautela ao revisitar essas lembranças. Temos de estar preparados para encontrar outra realidade, diferente da que idealizamos.
Por outro lado, se quisermos reviver sentimentos que nos deram tanta alegria, é preciso entender como nos comportar para não parecermos estranhos, nem para os outros, nem para nós mesmos. Siga pelo Instagram: @polito
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