Cultura

Um carro voador, por que não?

A mudança de mentalidade sobre o que é possível nos leva a questionar: e nós, estamos prontos para essa transformação?

Protótipo de eVTOL da Eve Air Mobility (Embraer). Os Jetsons, 1962, quando o futuro ainda era apenas desenho - Imagem: Reprodução
Protótipo de eVTOL da Eve Air Mobility (Embraer). Os Jetsons, 1962, quando o futuro ainda era apenas desenho - Imagem: Reprodução
Marlene Polito

por Marlene Polito

Publicado em 06/01/2026, às 10h34


A notícia passou quase como rotina tecnológica. Um carro voador já foi testado na Embraer, em Gavião Peixoto. Há protótipos em operação, encomendas feitas, prazos sendo discutidos. O que por décadas pertenceu à ficção científica começa a adquirir cronograma.

Para quem cresceu vendo esse tipo de invenção apenas nos desenhos de The Jetsons, o impacto não é apenas tecnológico. É mental. Algo se desloca silenciosamente. Aquilo que parecia fantasia passa a exigir outro nome.

Já havia prenúncios, é verdade. Mas há momentos em que o futuro deixa de ser promessa abstrata e se apresenta como fato em teste.  Nesses instantes, não é a tecnologia que mais impressiona; é a mudança na escala do possível.                                                                              

A história humana sempre avançou assim: um passo que parecia improvável, seguido de outro que parecia impossível. O espanto, porém, não está apenas no que a tecnologia alcança, mas no modo como essas conquistas nos obrigam a rever nossos próprios limites.

Quando o impossível muda de endereço, a pergunta deixa de ser “o que vem depois?” e se torna outra, bem mais incômoda: e nós?

É nesse ponto que as perguntas se separam. Há as que pedem explicações, organizam causas e recompõem o passado – o “por quê?”.  

E há aquelas que pedem passagem, que não se contentam em entender, mas ousam deslocar o que parece dado – o “por que não?”.

O “por quê?” descreve o mundo.
O “por que não?” suspende a obediência automática e aposta em movimento.

Uma pergunta entende a realidade. A outra decide atravessá-la.

É dessa pergunta, incômoda, muitas vezes solitária, que nascem os gestos capazes de deslocar rotas, linguagens e destinos.

Romper o chão; por que não voar?

Santos Dumont, voo do 14-Bis, Paris, 1906
Santos Dumont, voo do 14-Bis, Paris, 1906

Irmãos Wright, Kitty Hawk, 1903
Irmãos Wright, Kitty Hawk, 1903

Antes de voar, havia argumentos de sobra contra a tentativa. O peso do corpo, a fragilidade das asas, a queda anunciada, o ridículo público. O mundo estava repleto de razões para não tentar. Todas perfeitamente racionais.

Nada faltava ao “por quê?”. Faltava alguém disposto a não obedecer.

Alargar o horizonte; por que não sair da Terra?

Earthrise, Apollo 8, 1968 e Apollo 11, 1969
Earthrise, Apollo 8, 1968 e Apollo 11, 1969

A imagem da Terra suspensa no vazio não é apenas um feito tecnológico. É uma ruptura silenciosa na forma de pensar o mundo. Pela primeira vez, o planeta deixa de ser cenário e passa a ser objeto de contemplação: pequeno, frágil, finito.

Aqui, o “por que não?” deixa de empurrar um indivíduo e reposiciona a humanidade inteira. Não se trata apenas de ir mais longe, mas de olhar de outro lugar.

Desobedecer ao visível; por que não chamar isso de arte?

Abaporu, Tarsila do Amaral,1928
Abaporu, Tarsila do Amaral,1928

Bicho, Lygia Clark, 1960
Bicho, Lygia Clark, 1960

Quadro Negro, Kazimir Malevich, 1915
Quadro Negro, Kazimir Malevich, 1915

Quando a arte rompe com o reconhecível, não busca consenso. Busca deslocamento. O “por que não?” artístico não nega o passado. Interrompe a repetição e obriga o olhar a reaprender.

Por isso provoca riso, irritação, rejeição. Mas é justamente essa pergunta fora de lugar que impede a cultura de se tornar mera decoração do já conhecido.

Vencer o impossível interior; por que não quebrar o inquebrável?

Roger Bannister, milha em menos de 4 minutos, 1954
Roger Bannister, milha em menos de 4 minutos, 1954

Durante anos, acreditou-se que certos limites não poderiam ser ultrapassados. Não por falta de força física, mas por convicção coletiva. Quando um cai, descobre-se que era, em parte, um acordo invisível.

O “por que não?” age aqui de forma decisiva: desmonta fronteiras mentais e revela que o impossível costuma ser apenas o ainda não tentado.

 Quando avançar deixa de ser automático

Tecnologia, IA, exploração espacial
Tecnologia, IA, exploração espacial

O “por que não?” não pertence ao passado heroico. Ele reaparece quando o “por quê?” já explicou tudo e, ainda assim, nada se move. Na ciência, abre fronteiras. Na arte, impede a estagnação. Na vida comum, evita o cativeiro elegante das escolhas automáticas.

Como lembrava Hannah Arendt, o gesto mais propriamente humano não é repetir o mundo, mas iniciar algo novo. Não é antecipar o futuro, mas ousar iniciá-lo. O “por que não?” nasce quando o dado deixa de ser destino.

Curiosamente, quanto mais o mundo amplia o campo do possível, mais pessoas se refugiam na repetição, no medo de errar, na obediência silenciosa ao que sempre foi feito assim.

Talvez o “por que não?” não sirva para todos os momentos. Há situações que exigem cautela e recuo. Mas há outras, e elas são muitas, em que insistir no “por quê?” é apenas aceitar o impasse como destino.

O mundo parece disposto a avançar.

A pergunta decisiva é se nós aceitaremos permanecer onde estamos.