A mudança de mentalidade sobre o que é possível nos leva a questionar: e nós, estamos prontos para essa transformação?

por Marlene Polito
Publicado em 06/01/2026, às 10h34
A notícia passou quase como rotina tecnológica. Um carro voador já foi testado na Embraer, em Gavião Peixoto. Há protótipos em operação, encomendas feitas, prazos sendo discutidos. O que por décadas pertenceu à ficção científica começa a adquirir cronograma.
Para quem cresceu vendo esse tipo de invenção apenas nos desenhos de The Jetsons, o impacto não é apenas tecnológico. É mental. Algo se desloca silenciosamente. Aquilo que parecia fantasia passa a exigir outro nome.
Já havia prenúncios, é verdade. Mas há momentos em que o futuro deixa de ser promessa abstrata e se apresenta como fato em teste. Nesses instantes, não é a tecnologia que mais impressiona; é a mudança na escala do possível.
A história humana sempre avançou assim: um passo que parecia improvável, seguido de outro que parecia impossível. O espanto, porém, não está apenas no que a tecnologia alcança, mas no modo como essas conquistas nos obrigam a rever nossos próprios limites.
Quando o impossível muda de endereço, a pergunta deixa de ser “o que vem depois?” e se torna outra, bem mais incômoda: e nós?
É nesse ponto que as perguntas se separam. Há as que pedem explicações, organizam causas e recompõem o passado – o “por quê?”.
E há aquelas que pedem passagem, que não se contentam em entender, mas ousam deslocar o que parece dado – o “por que não?”.
O “por quê?” descreve o mundo.
O “por que não?” suspende a obediência automática e aposta em movimento.
Uma pergunta entende a realidade. A outra decide atravessá-la.
É dessa pergunta, incômoda, muitas vezes solitária, que nascem os gestos capazes de deslocar rotas, linguagens e destinos.
Romper o chão; por que não voar?


Antes de voar, havia argumentos de sobra contra a tentativa. O peso do corpo, a fragilidade das asas, a queda anunciada, o ridículo público. O mundo estava repleto de razões para não tentar. Todas perfeitamente racionais.
Nada faltava ao “por quê?”. Faltava alguém disposto a não obedecer.
Alargar o horizonte; por que não sair da Terra?

A imagem da Terra suspensa no vazio não é apenas um feito tecnológico. É uma ruptura silenciosa na forma de pensar o mundo. Pela primeira vez, o planeta deixa de ser cenário e passa a ser objeto de contemplação: pequeno, frágil, finito.
Aqui, o “por que não?” deixa de empurrar um indivíduo e reposiciona a humanidade inteira. Não se trata apenas de ir mais longe, mas de olhar de outro lugar.
Desobedecer ao visível; por que não chamar isso de arte?



Quando a arte rompe com o reconhecível, não busca consenso. Busca deslocamento. O “por que não?” artístico não nega o passado. Interrompe a repetição e obriga o olhar a reaprender.
Por isso provoca riso, irritação, rejeição. Mas é justamente essa pergunta fora de lugar que impede a cultura de se tornar mera decoração do já conhecido.
Vencer o impossível interior; por que não quebrar o inquebrável?

Durante anos, acreditou-se que certos limites não poderiam ser ultrapassados. Não por falta de força física, mas por convicção coletiva. Quando um cai, descobre-se que era, em parte, um acordo invisível.
O “por que não?” age aqui de forma decisiva: desmonta fronteiras mentais e revela que o impossível costuma ser apenas o ainda não tentado.
Quando avançar deixa de ser automático

O “por que não?” não pertence ao passado heroico. Ele reaparece quando o “por quê?” já explicou tudo e, ainda assim, nada se move. Na ciência, abre fronteiras. Na arte, impede a estagnação. Na vida comum, evita o cativeiro elegante das escolhas automáticas.
Como lembrava Hannah Arendt, o gesto mais propriamente humano não é repetir o mundo, mas iniciar algo novo. Não é antecipar o futuro, mas ousar iniciá-lo. O “por que não?” nasce quando o dado deixa de ser destino.
Curiosamente, quanto mais o mundo amplia o campo do possível, mais pessoas se refugiam na repetição, no medo de errar, na obediência silenciosa ao que sempre foi feito assim.
Talvez o “por que não?” não sirva para todos os momentos. Há situações que exigem cautela e recuo. Mas há outras, e elas são muitas, em que insistir no “por quê?” é apenas aceitar o impasse como destino.
O mundo parece disposto a avançar.
A pergunta decisiva é se nós aceitaremos permanecer onde estamos.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]
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