
por José Mauro Coelho
Publicado em 02/09/2026, às 08h48
A transição energética é uma realidade e continuará transformando a matriz energética mundial e brasileira nas próximas décadas. Isso, porém, não significa que o petróleo e seus derivados deixarão de ocupar posição relevante no curto ou médio prazo. Pelo contrário: o Brasil precisa conciliar a transição para uma economia de menor carbono com um desafio imediato e estratégico — garantir o abastecimento de combustíveis fosseis de uma economia que ainda depende fortemente deles.
O Brasil possui o nono maior parque de refino do mundo, com capacidade de processamento de cerca de 2,3 milhões de barris de petróleo por dia, entretanto, insuficiente para atender nossa demanda doméstica de combustíveis. Assim, o país é ao mesmo tempo um grande mercado consumidor de derivados de petróleo, mas também importador destes produtos.
O diesel é o exemplo mais importante. Em 2025, o Brasil produziu aproximadamente 48 bilhões de litros de diesel A, diante de uma demanda de 63 bilhões de litros. Isso significa que cerca de um quarto do diesel consumido no país precisou vir do exterior. É uma vulnerabilidade especialmente relevante em uma economia na qual grande parte do transporte de cargas ocorre pelo modo rodoviário.
Segurança energética pressupõe capacidade de produzir, transportar e disponibilizar energia em quantidade suficiente para atender à sociedade e à atividade econômica. Quanto maior a dependência externa de um insumo estratégico, maior a exposição do país a crises internacionais, conflitos geopolíticos, restrições logísticas e oscilações do mercado mundial.
É nesse contexto que precisamos discutir o papel das refinarias de pequeno porte. O Brasil necessita ampliar sua capacidade de refino, mas essa expansão não precisa ocorrer exclusivamente por meio de grandes complexos industriais. O refino regional pode complementar essa estrutura e aproximar a produção dos mercados consumidores.
Essa discussão não é recente. Desde 2017, políticas públicas, como as inciativas “Combustível Brasil” e “Abastece Brasil”, buscaram criar condições para a entrada de novos agentes e estimular investimentos no downstream. Ainda nesta direção, em 2019, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) publicou estudo sobre as “Perspectivas de implantação de Refinarias de Pequeno Porte no Brasil”, destacando sua importância para a garantia do abastecimento, especialmente em mercados regionais. Adicionalmente, o documento produzido pela EPE ressaltou que a operação de uma refinaria de pequeno porte surge como uma alternativa para maior valorização do petróleo nacional, além de ampliar o número de agentes ofertantes de derivados no país.
Além dos pontos positivos anteriormente descritos, essas refinarias apresentam características relevantes do ponto de vista operacional. Plantas menores podem permitir melhor otimização da operação, maior eficiência dos processos e custos menores. Há também uma dimensão ambiental importante: operações mais eficientes podem contribuir para menores níveis de emissões de gases de efeito estufa (GEE) e, consequentemente, para a redução da pegada de carbono associada ao refino de petróleo.
Portanto, não existe necessariamente uma contradição entre investir em refino e avançar na transição energética. A questão central é como realizar esses investimentos. Eficiência operacional, modernização tecnológica, responsabilidade ambiental e redução de emissões precisam fazer parte dessa agenda.
Neste sentido, a experiência da SSOil Energy, em Coroados, no Noroeste paulista, ajuda a materializar esse debate. A refinaria representa um empreendimento regional capaz de contribuir para a oferta de combustíveis próxima a importantes centros consumidores, assim como para a diversificação de agentes neste mercado. É também o resultado de um movimento de políticas públicas iniciado há aproximadamente uma década pelo Governo Federal para estimular novos investimentos e ampliar a participação de diferentes agentes no setor de refino brasileiro.
O Brasil continuará precisando de derivados de petróleo por muitas décadas, mesmo com o avanço dos biocombustíveis, da eletrificação e de outras fontes de energia. Entendendo que essa demanda continuará a existir por longos anos, precisamos decidir quanto dela queremos atender com produção nacional e quanto aceitaremos continuar buscando no mercado internacional.
Ampliar o refino regional significa diversificar a oferta, estimular investimentos, aumentar a competitividade, fortalecer a segurança do abastecimento e gerar renda e empregos. Quando isso ocorre com tecnologia, inovação, eficiência e responsabilidade ambiental, também é possível reduzir custos e a pegada de carbono das operações.
A transição energética não elimina os desafios da segurança energética e da necessidade de redução da dependência externa por combustíveis. Ao contrário: torna ainda mais importante planejar o futuro sem perder de vista as necessidades do presente. E as refinarias de pequeno porte podem ocupar um espaço estratégico nessa construção.
Leia também

Suspeita de comercializar medicamentos emagrecedores sem registro é presa na Vila Esperança

Baixada Santista tem 468 vagas abertas em cursos profissionalizantes gratuitos do Estado

Santos fecha com Acqua Float e instala cápsulas de flutuação no CT Rei Pelé

O mundo que muda

Prefeitura de Guarujá é isenta de ressarcir moradia irregular destruída em deslizamento no morro

Refino regional: eficiência, custos menores e menos emissões de carbono

Concurso da Prefeitura de Santos com 216 vagas para professores inscreve até 10 de setembro

Suspeita de comercializar medicamentos emagrecedores sem registro é presa na Vila Esperança

Servidores de Guarujá têm até 15 de setembro para declarar bens e evitar suspensão de salário

Trabalhador morre e dois passam mal em caixa d’água subterrânea de obra na Vila Mathias, em Santos