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"Aberrações": discurso de vereadora de SP sobre comunidade LGBT causa onda de protestos

O discurso foi feito na última segunda-feira (19) na Câmara Municipal

"Aberrações": vereadora de SP ofende comunidade LGBT e causa onda de protestos - Imagem: reprodução Diário de S.Paulo
"Aberrações": vereadora de SP ofende comunidade LGBT e causa onda de protestos - Imagem: reprodução Diário de S.Paulo

Vitória Tedeschi Publicado em 30/06/2023, às 09h23


O discurso de uma vereadora na Câmara Municipal de Araras (SP) causou grande revolta na comunidade do município que defende a pauta LGBT. Na ocasião, Deise Aparecida Olimpio de Oliveira (União Brasil) usou a palavra "aberração" em um discurso sobre a comunidade LGBTQIAPN+.

De acordo com o Diário de S.Paulo, o discurso aconteceu no último dia 19, segunda-feira, durante uma sessão da Frente Parlamentar Cristã de Defesa da Vida e da Família de Araras, quando o assunto era o uso da imagem de crianças e adolescentes em campanhas de apoio ao mês do Orgulho LGBT.

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A vereadora Deise Olímpio faz parte do grupo que fundou a Frente Parlamentar cristã / Imagem: reprodução YouTube

"Acho que já ficou muito claro que a sociedade brasileira não aceita o uso de imagem de crianças e adolescentes para esse tipo de campanha", começou a vereadora.

Deise continuou citando como um exemplo do que seria algo semelhante ao uso de crianças em campanhas LGBTs, um caso em que menores de idade haviam participado de uma exposição com homens e mulheres nuas e houve grande repúdio por parte da população.

A vereadora quis referir-se à performance do artista nu, Wagner Schwartz, no Museu de Arte Moderna (MAM), no Ibirapuera, Zona Sul de São Paulo, que causou polêmica em 2017.

Tudo que for contra a moral, a família, os princípios sempre serão veementemente repudiados pela Frente Parlamentar Cristã. E, claro, que todos os vereadores que se colocarem também contrários a esta aberração ficam convidados a assinar conosco para dar força e dar peso e evitar, lamentavelmente, episódios como esse", concluiu Deise.

Confira o cartaz divulgado pelo grupo:

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O cartaz foi divulgado nas redes soicias e já havia gerado incômodo / Imagem: reprodução redes sociais

Após a declaração, a comunidade LGBT da cidade se revoltou e cobrou da parlamentar uma retratação pública. O momento foi filmado e divulgado pela própria Câmara, por se tratar de uma audiência pública e aberta à população.

Apesar de ainda não ter se pronunciado publicamente, a vereadora foi até suas redes sociais para explicar que não teria usado o termo "aberração" para referir-se ao grupo, mas sim ao episódio da exposição que citou como exemplo

No entanto, a desculpa não foi aceita pela comunidade LGBT que segue pedindo para que a parlamentar se retrate no mesmo local onde os feriu: na Câmara Municipal de Araras.

Com isso, na última segunda-feira (26), um grupo de ativistas da causa LGBT decidiu ir até a Câmara para acompanhar a audiência que aconteceu para tratar sobre a mesma pauta, mas o resultado, mais uma vez, não foi positivo.

Ana Paula Mazetto, que estava no local e faz parte da militância LGBT, contou que viveu momentos dificeis durante toda a sessão e que o grupo não recebeu a atenção que merecia.

"Durante toda a sessão a gente se manteve ali invisível, alvo de chacota. Eles riam da nossa cara. Um dos vereadores chegou a provocar a gente", desabafou ela, que também contou que alguns vereadores chegaram a usar termos como "opção sexual" - ao invés do correto, que é "orientação sexual" - e até afirmações sobre uma suposta "censura" por parte do grupo manifestante.

Eles utilizam a questão da liberdade de expressão de maneira equivocada, porque a gente sabe que liberdade de expressão não é isso. Não é cometer crime", afirma.

Segundo ela, "esse tipo de fala propaga a violência, o discurso de ódio, de raiva, abominação à pessoa trans e à comunidade LGBTQIA+. Então, esse tipo de discurso é muito perigoso e faz com que a gente fique invisível".

Ela ainda diz que acredita que a criação de uma Comissão dos Direitos Humanos dentro da Câmara seja essencial para que discursos como este não aconteçam e defende uma maior representatividade da comunidade LGBT dentro do órgão, com pessoas trans e representantes da causa para levar as demandas e defender os interesses do grupo.

Por trás da sigla LGBTQIAPN+

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Mãe e filho, juntos, fazem parte do grupo militante pela causa LGBT em Araras (SP) / Imagem: reprodução Diário de S.Paulo

Mãe solo, ativista pelos direitos LGBTQIA+, em especial da pessoa trans, e professora, Ana Paula Mazetto representa o grupo das diversas pessoas que se sentiram feridas com o comentário da vereadora.

Ela é mãe de um adolescente de 17 anos, Nathaniel, que é um homem trans, e é por ele que ela faz o pedido de retratação e está na luta pela comunidade há 11 anos.

"Ele fez uma carta para mim com 14 anos dizendo que ele era uma pessoa trans. Eu fiquei duas semanas em choque, pensando: 'Meu Deus como vai ser? Não é mais fulana, agora é Nathaniel', e agora?'", relembra ela, que afirma que desde que o filho veio ao mundo ela aprende a ser uma pessoa melhor.

"Até que eu pensei: 'Quem que paga as minhas contas? Eu sou mãe solo, eu que cuido desse menino, eu que luto por ele. Então, que se dane o que vão pensar, não devo nada'. Ele vai ser aceito, ele vai ser amado e ele vai ser o que ele quiser", completou ela.

Nas palavras de Ana, o feminino virou masculino, mas o amor que sentia pelo filho só aumentou. Foi nesse lugar que Ana se sentiu ferida ao ouvir a fala da vereadora, que a machucou também como mãe, que tem o instinto de proteger e lutar por seu filho.

Além disso, Ana afirma que a luta não é apenas pelo filho, pois uma mudança nesse sentido geraria um impacto positivo social e de crescimento de mentalidade da sociedade como um todo.

"Porque o conhecimento liberta. Ele faz com que preconceitos caiam e discriminações sejam exterminadas ou sejam refletidas em mudanças de ações e de postura. Porque o ser humano pode mudar, ele pode melhorar. E a gente acredita no ser humano, e que ele pode ser melhor", finaliza ela.

Confira as notas da vereadora e da Câmara Municipal:

O Diário de S. Paulo, que procurou a vereadora para saber se a retratação aconteceria na Câmara Municipal, recebeu uma nota da vereadora Deise falando sobre o episódio. Leia:

"Enquanto vereadora e advogada me manifestei, expressando a minha opinião, em relação ao uso de imagens de crianças e adolescentes nas campanhas com exposição dos mesmos, em razão da proteção que lhes é garantida, na forma da lei. Ressalto, que já me manifestei diretamente a alguns representantes do movimento e também nas mídias, reafirmando que não me dispus, em momento algum, a fazer discurso de ódio, homofóbico ou transfóbico, pois, todas as pessoas, indistintamente, independente de raça, credo, gênero, idade, entre outros, devem ser tratadas com respeito e consideração e me coloquei à disposição, inclusive, para recebê-los para conversamos amigavelmente, porém, não foi aceito, optando pela manifestação na Câmara Municipal de Araras. Infelizmente, não foi possível a manifestação dos vereadores em “Palavra Livre”, na sessão camarária do dia 26/06/2023, por ter sido suspensa a sessão ordinária, por duas vezes, por determinação da Presidente da Câmara Municipal, em razão do descumprimento do dever regimental de se manifestarem de forma pacífica e ordeira".

A Câmara Municipal de Araras também compartilhou uma nota sobre o posicionamento da vereadora Mirian Vanessa Pires (PSD) com relação ao caso. Confira:

"Como presidente da Casa Legislativa, é meu dever acolher toda e qualquer demanda da população e abrir espaço para que todos possam se manifestar. Conversei com o coletivo e deixei a Câmara de portas abertas para diálogo junto à presidência ou a criação de um evento em conjunto para que possamos, dentro do papel institucional, possibilitar a realização de temas para conscientizar, educar e ensinar a cidadania. As manifestações sobre o ocorrido foram recebidas pela Câmara e seguirão o trâmite da Casa".

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