TJ-SP autorizou depoimentos de Lucas Grudzien, do padre acusado e de testemunhas, além de perícia psicológica

Lívia Gennari Publicado em 28/10/2025, às 17h00
O ex-coroinha Lucas Grudzien voltará a prestar depoimento à Justiça, mais de dez anos depois de denunciar um padre por estuproem Guarujá.
A 12ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) também determinou que o religioso acusado, Edson Felipe Monteiro Gonzalez, e testemunhas do caso sejam ouvidos.
Entenda o caso
Lucas, hoje com 28 anos, revelou que os abusos começaram em 2012, quando ele iniciou o curso para se tornar coroinha. Segundo ele, o padre passou a se aproximar e, ao completar 15 anos, pediu que Lucas ficasse até mais tarde na igreja. Foi nesse dia que, segundo a denúncia, o jovem foi estuprado. Os abusos teriam continuado por mais de um ano.
Ainda de acordo com Lucas, o padre o orientava a apagar todas as conversas entre eles nas redes sociais, dificultando que familiares ou terceiros descobrissem o que ocorria. O pai acabou percebendo sinais estranhos e, ao questionar o filho, Lucas relatou os abusos. A família registrou boletim de ocorrência e acionou o Ministério Público.
Na Justiça
O atual processo, movido por Lucas e seus pais, busca indenização por danos morais e tramita na esfera cível. Segundo a advogada Dilene de Jesus Miranda, que representa a família junto com a também advogada Andressa Fraga, o caso está atualmente em fase de instrução, etapa voltada à coleta de provas.
“As partes ainda não haviam sido ouvidas nesta demanda. O Lucas só foi ouvido quando menor, na delegacia, e sem a escuta especializada prevista no ECA. A oitiva permitirá ao juiz compreender com mais profundidade como o fato o afetou pessoalmente, o que dificilmente se demonstra apenas por documentos", explicou Dilene.
Além dos depoimentos, o tribunal determinou a realização de perícias psicológicas no ex-coroinha e no padre. De acordo com a advogada, os exames serão fundamentais para avaliar possíveis desvios de conduta e manipulação, bem como a extensão dos danos psicológicos sofridos por Lucas.
Outro ponto considerado decisivo é a inclusão do processo canônico conduzido pela Igreja Católica. A defesa tenta, há anos, obter acesso aos autos do procedimento interno da Diocese de Santos, que, segundo Dilene, resultou em penalidades ao padre.
“Se houve responsabilização pela Mitra Diocesana de Santos, as provas colhidas naquele procedimento podem contribuir para a elucidação dos fatos na esfera cível. Esse processo é sigiloso, e a Igreja vem negando sua cópia desde a conclusão do mesmo”, afirmou.
A advogada também destacou os entraves enfrentados pela equipe jurídica desde o início da ação, em 2020. Segundo ela, sucessivos indeferimentos na 2ª Vara Cível de Guarujá têm atrasado o andamento do caso.
“O principal obstáculo tem sido a demora do Judiciário. Diversos pedidos foram negados em primeira instância, o que nos obrigou a recorrer ao Tribunal de Justiça, onde obtivemos êxito em todos os recursos”, relatou.
O inquérito criminal instaurado na época foi arquivado, já que, no momento da denúncia, Lucas não se enquadrava mais na definição legal de “vulnerável”. Apesar disso, a advogada reforça que a responsabilização civil independe da criminal.
“A ação cível só foi proposta após o arquivamento do inquérito. A inexistência de condenação criminal não afasta o dever de reparação no âmbito cível”, afirmou Dilene.
Em nota, a Diocese de Santos, por meio da Mitra Diocesana, informou que o padre Edson Felipe Monteiro Gonzalez continua autorizado a exercer o ministério presbiteral, atuando em atividades pastorais na Cúria Diocesana, sem vínculo com paróquias específicas.
O advogado que representa o religioso afirmou que o processo civil segue sob segredo de justiça, ainda em fase probatória, sem decisão de mérito.
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