Cultura

A fotografia como elemento de construção da história

Certas fotografias não apenas registraram o mundo, mas ajudaram a inventá-lo

Soldados americanos desembarcam na praia de Omaha, Normandia, em 6 de junho de 1944. Fotografia oficial do Exército dos Estados Unidos - Foto: Reprodução
Soldados americanos desembarcam na praia de Omaha, Normandia, em 6 de junho de 1944. Fotografia oficial do Exército dos Estados Unidos - Foto: Reprodução
Marlene Polito

por Marlene Polito

Publicado em 03/02/2026, às 10h56


A fotografia como documento fundador do imaginário histórico do século XX

Há fotografias que não ilustram a história; elas se tornam a própria história. Ao longo do século XX, a fotografia deixou de ser apenas técnica e registro. Tornou-se uma forma de pensamento visual, capaz de moldar sensibilidades, decisões políticas e a própria maneira como percebemos o mundo.

No início, a câmera prometia fidelidade. Com o tempo revelou algo mais profundo: as imagens não apenas mostram o real, elas o constroem.

Quando a fotografia muda o mundo

Algumas fotografias condensaram épocas inteiras em um único gesto. Migrant Mother, de Dorothea Lange, tornou-se o rosto da Grande Depressão.

Dorothea Lange, Migrant Mother (1936)
Dorothea Lange, Migrant Mother (1936) / A imagem que transformou sofrimento social em política pública

Nas frentes de batalha, Robert Capa traduziu o caos da guerra em experiência visual imediata, enquanto as imagens oficiais do desembarque na Normandia cristalizaram, quase como uma epopeia moderna, o imaginário da Segunda Guerra Mundial.

No Vietnã, a menina correndo nua após o ataque com napalm transformou o horror distante em evidência incontornável, capaz de atravessar fronteiras e consciências.

Henri Cartier-Bresson, por sua vez, ensinou o mundo a perceber o tempo como revelação súbita, ao fixar o instante decisivo em que o acaso parece ganhar forma.

Essas imagens não apenas registraram fatos. Elas reorganizaram o olhar público e se infiltraram na memória coletiva, convertendo acontecimentos em matrizes visuais da experiência histórica. A fotografia deixou de observar a história e passou a escrevê-la.

Quando a fotografia começa a pensar

No campo da arte, a fotografia deu um passo ainda mais radical: deixou de copiar o mundo e passou a interrogá-lo.

Já nas primeiras décadas do século XX, Man Ray levou a fotografia para o território do sonho. Com seus rayographs, imagens feitas sem câmera, dissolveu a fronteira entre fotografia, desenho e acaso. A fotografia tornava-se gesto poético, escrita da luz.

Man Ray, Le Violon d’Ingres, 1924
Man Ray, Le Violon d’Ingres, 1924 / O corpo como partitura visual. Quando a fotografia deixa de registrar o mundo e passa a inventá-lo

Cindy Sherman encenou identidades e desmontou estereótipos visuais do feminino. A fotografia deixava de ser espelho e tornava-se linguagem, uma forma de pensar por imagens.

Toda linguagem é também uma forma de poder. Toda imagem governa o visível.

Cindy Sherman, Untitled Film Still #21, 1978
Cindy Sherman, Untitled Film Still #21, 1978 / A identidade como encenação. A fotografia como teatro do eu

A imagem como poder

A fotografia também se tornou instrumento de poder. Como prova, legitima discursos científicos e jurídicos. Como propaganda, constrói mitologias políticas. Como vigilância, organiza arquivos de controle. Como memória, decide o que será lembrado e o que será esquecido. O que se fotografa existe. O que não se fotografa tende a desaparecer da história.

No século XX, regimes políticos compreenderam cedo o poder da imagem. Retratos monumentais de líderes, como os de Mao Tsé-Tung, construíam uma aura quase sagrada.

No século XXI, a política tornou-se espetáculo permanente, e figuras como Donald Trump operam em um regime de visibilidade contínua, no qual a performance visual é parte constitutiva do poder.

Se Mao dependia de imagens fixas, Trump depende de imagens em fluxo. O primeiro precisava de ícones; o segundo, de presença incessante.

A fotografia, que começou como testemunho, tornou-se encenação do poder.

Retrato monumental de Mao Tsé-Tung (Praça Tianamen) e Retrato oficial presidencial de Donald Trump (Casa Branca)
Retrato monumental de Mao Tsé-Tung (Praça Tianamen) e Retrato oficial presidencial de Donald Trump (Casa Branca)

O mundo como tela permanente

Hoje, a fotografia deixou de ser exceção e virou condição de existência. Smartphones transformaram cada gesto em imagem potencial. Selfies, stories, arquivos em nuvem e algoritmos criaram um mundo em que a experiência parece incompleta sem registro. Com a inteligência artificial, imagens podem existir sem mundo. O real tornou-se opcional; a imagem, soberana.

O mundo passou a acontecer para ser visto. Walter Benjamin já intuía, nos anos 1930, que a reprodução técnica transformaria nossa relação com a experiência. Talvez hoje vivamos menos o instante e mais sua reprodução.

Se algumas fotografias mudaram o mundo, é porque a imagem deixou de ser apenas reflexo e passou a ser acontecimento: ela intervém na história enquanto a constrói. A fotografia já não é apenas uma técnica; tornou-se uma condição de existência.

Talvez ainda estejamos aprendendo o que significa habitar um mundo em que não apenas vemos as imagens, mas passamos a viver dentro delas, como se a realidade tivesse se tornado uma galeria.