Entenda como Picasso se tornou um ícone da arte moderna e refletiu as complexidades do século XX

por Marlene Polito
Publicado em 04/11/2025, às 11h31
O que é ser Picasso?
Ser Picasso é ser espelho de um século inteiro, é carregar no gesto o espanto, a dor e o delírio da modernidade.
Giulio Carlo Argan escreveu que, desde Michelangelo, nenhum artista havia sido tão identificado com o espírito de sua época. Essa comparação é reveladora. Vasari, o primeiro historiador da arte, ao analisar o Juízo Final, apresenta Michelangelo como uma figura quase divina, cuja arte refletia e influenciava os rumos espirituais e políticos de seu tempo, especialmente durante a Contra- Reforma.
Picasso assume papel semelhante na modernidade. O final do século XIX marca o início de uma nova configuração de época. E ele surge nesse contexto como um catalisador, alguém que absorve, transforma e projeta os sinais de seu tempo.
Sua obra não apenas dialoga com os dilemas do século XX, mas os transforma em linguagem visual. Guernica, sua obra principal, é mais que uma pintura. É um manifesto contra a barbárie, um grito político e humano.
A arte deixa de ser apenas representação e passa a ser interpretação, ruptura, invenção.
Os precursores, o gesto de ruptura antes de Picasso
Antes dele, outros haviam aberto caminho.
Van Gogh fez da natureza o reflexo de sua alma; o pathos tornou-se matéria.
Cézanne desmontou a perspectiva e mostrou que o olhar podia ter mais de um centro.
Gauguin buscou o “primitivo” e inspirou em Picasso o fascínio pelas máscaras africanas.
Courbet e os impressionistas libertaram a arte da idealização e a aproximaram da vida.

O percurso de um gênio
Sua trajetória inicial revela o itinerário de um espírito em busca de sentido.
Aos quatorze anos, Picasso já dominava a técnica acadêmica. Mas foi em Paris, entre cafés e ateliês, que descobriu que a arte podia ser também pensamento. Convivendo com poetas e colecionadores, como Gertrude Stein, aprendeu que criar é dialogar com o tempo.
Essa curiosidade insaciável o fez pertencer a todos os estilos e a nenhum: sua única fidelidade era à liberdade.
As fases da alma
A fase azul (1901-1904) mergulha na melancolia, e a dor se faz cor. Reflete crises pessoais e sociais: o homem dobra o corpo para ouvir o próprio silêncio.
A fase rosa (1904-1906) marca o retorno ao afeto e à leveza, com tons quentes e temas circenses.

Em seguida, o encontro com as máscaras africanas rompe o lirismo. O rosto humano se torna enigma, estrutura, símbolo. A máscara, em Picasso, não oculta, revela.
Essa fusão entre o arcaico e o moderno inaugura o Proto-Cubismo: a arte como dissecação e reconstrução do visível. A forma começa a se desconstruir.
Em Les Demoiselles d”Avignon,, sua segunda obra mais importante, Picasso representa as mulheres dessa rua de Barcelona com muitos prostíbulos. Mistura a figuração mais próxima no meio, inclui as máscaras africanas nas extremidades, e reduz as partes da pintura a figuras geométricas menores. A natureza morta, referência a Cézanne, também está presente.

Georges Braque e o nascimento do Cubismo
Com Georges Braque, ele leva essa descoberta ao limite, dá forma à revolução.
O Cubismo desmantela a ilusão de profundidade: o espaço tridimensional é trazido à tela e reorganizado. Os planos se sobrepõem, o tempo se mistura, e o olhar do espectador completa a obra.
Essa versatilidade seria sua marca definitiva. Picasso não pertencia a um movimento, mas a todos os movimentos, não se prendendo a estilos. Ele os cria, os transforma, os abandona e os reinventa.
O Cubismo Analítico (1909–1912) fragmenta o real até a abstração: violões, garrafas, rostos dissolvem-se em geometrias.
O Cubismo Sintético (a partir de 1912) recompõe o mundo a partir dos restos, com colagens, jornais, letras, objetos banais. Há um retorno parcial à figuração.
A arte passa a dialogar com o cotidiano, abolindo a distância entre o estético e o comum.
A pintura se transforma em linguagem. Pensa, cita, ironiza, comenta.
O retorno à ordem
Após a Primeira Guerra Mundial, o impulso de destruição cede lugar à necessidade de permanência. Ele retorna à figuração, mas não à tradição. Cria novas sínteses, e sua obra passa a transitar entre estilos com liberdade absoluta. É múltiplo, plural, inclassificável.
Assim, não há um Picasso, há muitos, todos convivendo num mesmo criador.
O artista total
Entre o Juízo Final e Guernica, corre a mesma ambição: traduzir a condição humana em imagem. Enquanto Michelangelo buscava a unidade perdida, Picasso assumiu a fragmentação inevitável, a do homem, da história, do próprio olhar.
Em sua obra, convivem o sagrado e o profano, o clássico e o experimental, a política e o sonho. Nada lhe era estranho. Transformou o trauma em criação, o instante em permanência, a dor em estrutura.
De Michelangelo a Picasso, o artista deixa de ser imagem de Deus e se torna espelho do homem - trágico, fragmentado, mas infinitamente criador.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]
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