Reflexões sobre a relação com a gravata e seu significado na vida profissional

por Reinaldo Polito
Publicado em 10/04/2026, às 10h58
Tirei a gravata no meio de um curso e nunca mais voltei a usá-la.
Não foi por moda, nem por conforto. Foi por necessidade.
Naquele momento, percebi que estava fora do ambiente.
Há objetos que fazem parte de um passado nem tão distante assim: gravata e chapéu são alguns deles. Chapéu eu tenho, mas nunca cheguei a usar. A gravata, entretanto, esteve presente em quase todos os momentos da minha vida. A nossa relação foi duradoura e teve um desfecho curioso.
Usei gravata praticamente a vida profissional inteira. Nunca saía de casa sem terno e gravata. Era um hábito tão enraizado que, certa vez, o irmão de um professor da nossa escola de oratória perguntou, em tom de brincadeira: será que o pijama do Polito tem gravata? Disse que jamais havia me encontrado sem uma. É verdade, eu tinha centenas delas.
O registro mais antigo
A origem da gravata é curiosa. A “cravat” é um símbolo croata. E sabe-se que nasceu na Croácia. A pintura mais antiga de alguém usando esse acessório é a do poeta croata Ivan Gundulic, datada de 1622. Portanto, ir àquele país e não trazer de lá uma gravata seria como ir a Roma e deixar de ver o Papa.
Pois é. Fui e voltei sem comprar uma única peça. Na época da viagem, eu já havia deixado de usar essa indumentária. O desapego ocorreu de forma gradual. Um episódio marcante, em especial, foi determinante.
Uma dica inesperada
Ministrei 16 cursos para o Google, todos realizados na sede da empresa. Participaram profissionais dos mais diversos níveis, da supervisão à alta direção Gente arejada, receptiva, interessada e muito participativa. O resultado não poderia ter sido diferente: excepcional.
Um belo dia, almoçando com a diretora de RH, em uma conversa próxima e informal, ela me disse:
“Polito, nós o contratamos porque é o melhor profissional no ensino da comunicação que encontramos no mercado, mas, sinceramente, você não combina muito com o perfil do nosso grupo.”
Mudei na hora certa
No mesmo instante, olhei ao redor e observei como estavam vestidos os colaboradores. Todos de tênis, calça jeans, muitas no estilo rasgado (“destroyed”), e camiseta. Ela estava com a razão. O figurino não batia. Na mesma hora, tirei a gravata e o paletó, arregacei as mangas da camisa e me alinhei ao estilo dos alunos. Nunca mais usei gravata para dar aula. ‘Peguei pelo rabo’, com decisão na hora certa.
Durante alguns anos, fui presidente da Academia Paulista de Educação. Nas reuniões importantes com a diretoria, usava terno e gravata, já que os participantes, quase todos com mais de 75 anos, também se vestiam assim. Ao passar o cargo para o sucessor, nunca mais.
A gravata caiu bem
Até as fotos que eu utilizava para divulgar o trabalho foram substituídas. Eliminei aquelas em que aparecia de terno e gravata e troquei por outras apenas de camisa ou, no máximo, com blazer.
Uma exceção foi recente. Recebi a medalha MMDC, da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Fui ao evento de terno e gravata. E foi a escolha certa. Todos estavam vestidos assim. Como disse Raul Briquet, na conferência “O vestuário”:
“A pessoa se sente mais confortável com a sua roupa à medida que nota no ambiente outros vestidos como ela.”
A gravata caiu mal
Em outra situação, deu errado. Fui ao casamento do filho de um de nossos professores. Pensei: em casamento, com certeza, todos estarão de terno e gravata. E assim fui. Para minha surpresa, entretanto, só eu estava de gravata. Tirei o acessório e o enfiei no bolso. Foi a pá de cal.
A partir desse dia, todas ficaram guardadas como lembrança da nossa boa convivência. De vez em quando, olho para os compartimentos feitos no armário exclusivamente para elas e penso: será que um dia alguma voltará ao meu pescoço?
Depende do ambiente
Até os bancos, que sempre foram mais sisudos e exigiam terno, já flexibilizaram esse tipo de vestimenta. A última fronteira são os advogados, mas, pelos sinais dos últimos tempos, até esses doutores talvez abandonem o hábito. Em alguns dias da semana, quando não precisam atender clientes, há escritórios que dispensaram o traje formal.
Mas nem tudo é definitivo na vida. Há pouco tempo, separei uma dúzia das que mais me agradam, mandei lavar e, de vez em quando, mato a saudade revivendo bons momentos do passado. Senti-me muito bem com esse resgate. E, para minha surpresa, as pessoas que me encontraram elogiaram o traje.
Não voltei a usar gravata com frequência. Mas, de vez em quando, dependendo da circunstância e do ambiente, visto uma das minhas preferidas. Elas me remetem a um passado de boas lembranças. E, curiosamente, ainda me fazem muito bem. Siga pelo Instagram: @polito
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