Homem trans denuncia o preconceito sofrido durante festival em Santos, litoral de São Paulo

Maria Clara Campanini Publicado em 29/07/2024, às 11h45
Durante o Santos Jazz Festival, um homem transexual foi impedido de utilizar o banheiro masculino. Ao impedir o uso do banheiro, o segurança ainda disse que o evento não permitia "mulheres que querem se passar por homem".
O ato ocorreu durante a 12ª edição do Santos Jazz Festival, que aconteceu em Arcos Valongo, Centro de Santos. Luan disse ao G1 que foi ao evento comemorar seu aniversário de 37 anos, mas foi embora se sentindo humilhado e indignado.
Segundo Luan, ele foi ao festival com a namorada para assistir aos shows. Tudo corria bem até precisar ir ao banheiro, onde foi barrado mesmo se identificando como homem transexual.
"Ele disse que não, que recebeu ordens da coordenação do evento para não permitir que isso acontecesse. Eu perguntei 'isso o quê?'. E ele disse: 'mulheres que querem se passar por homem'. Foram exatamente essas palavras", disse Luan.
Luan até argumentou que tinha direito por lei, mas não foi o bastante e se iniciou uma discussão. "Deu uma certa confusão porque acabei me exaltando. Eu só queria fazer o uso do banheiro igual a uma pessoa comum e não me foi permitido", informou.
Após discutir com o segurança, Luan desistiu e foi usar um banheiro químico onde não havia ninguém por perto.
"É muito constrangedor você querer fazer uma necessidade fisiológica básica, que para qualquer pessoa cisgênero [quem se identifica com o gênero que foi atribuído quando nasceu] seria tão simples, mas para nós se torna um pesadelo", lamentou Luan.
Logo após o incidente, Luan foi abordado pela Secretária de Cultura de Santos, que confirmou sua ordem aos seguranças. "[Ela] disse que tinha sido uma ordem dela, que realmente não era para acontecer esse tipo de coisa. Que outras mulheres poderiam ver e querer também usar o banheiro", relatou Luan.
A Secretária de Cultura ainda disse que casos como esses acontecem em outros festivais, com isso Luan completou: "Então, não é uma novidade para o evento que eles tinham uma necessidade de ter um banheiro unissex ou separado para as pessoas trans. Algo que pudesse acolher, afinal, é uma comunidade que existe. Estamos aí ocupando os espaços também."
Repercussão
Após o ocorrido, Luan registrou o boletim de ocorrência e compartilhou o vídeo nas redes sociais. Ele disse que já está tomando as medidas legais, jurídicas e administrativas sobre o ato.
Ainda de acordo com ele, duas pessoas da organização do evento falaram com ele sobre o ato, mas para Luan a principal preocupação dos organizadores era a repercussão do caso. "A discussão não é sobre sensacionalismo e sim sobre busca de direitos", argumentou.
"Ações legais têm que ser tomadas e já estão sendo para que não seja jogado por debaixo do tapete [...]. Essa é a minha luta agora", terminou Luan.
Posicionamento
A Prefeitura de Santos informou por meio de nota que “repudia todo e qualquer ato de preconceito contra identidade de gênero e esclarece que não tem ingerência acerca da organização e contratação de seguranças para o festival, que é um evento privado e ocorre em local particular”.
Ainda de acordo com a prefeitura, o evento conta com apoio da Secretaria de Cultura, poder legislativo – emenda de vereadores – e pela iniciativa privada.
“A Secult também destaca que, em nenhum momento, partiu qualquer ordem da Secretária de Cultura que impedisse o uso dos sanitários, fato já esclarecido pelos organizadores do evento”.
Na nota pública pelo evento nas redes sociais, afirmou-se que é um festival que preza e respeita a diversidade, “condenando todo e qualquer tipo de manifestação preconceituosa e discriminatória”.
“Desde já queremos pedir desculpas ao Luan Palermo por essa experiência. Não cabem justificativas: essa não é uma atitude que faz parte do DNA do evento. Estamos apurando todos os detalhes do ocorrido, visando reparar e reorientar nosso time para que situações como essa não ocorram novamente”.
Na nota, o festival informa que espera a volta de Luan ao evento, para assim ser tratado com o respeito, dignidade, alegria e acolhimento que merece.
ConLGBT
O Conselho Municipal de Políticas LGBT+ de Santos se pronunciou por nota nas redes sociais e se solidarizou com Luan, pedindo para a população denunciar todo e qualquer ato de violência.
“Estamos acompanhando de perto o caso e já nos colocamos à disposição da vítima para toda a averiguação necessária. Além disso, solicitamos à organização do evento que trate o assunto com a devida seriedade. Este conselho jamais tolerará qualquer ato de LGBTfobia, seja em eventos ou não. Continuaremos avançando a cada dia em nossa luta para a construção de uma Santos mais diversa e melhor para todas as pessoas.”
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