Figuras emblemáticas da cultura japonesa, representam o equilíbrio entre tradição, arte e independência em uma sociedade patriarcal

por Marlene Polito
Publicado em 19/11/2024, às 11h32
Elas não eram esposas nem servas, mas artistas que moldaram uma era de sofisticação e mistério. As gueixas, figuras emblemáticas da cultura japonesa, representam o equilíbrio entre tradição, arte e independência em uma sociedade patriarcal. Embora frequentemente mal compreendidas no Ocidente, sua história é rica em simbolismo e cheia de contrastes.
O que são as gueixas?
O termo “gueixa” significa “pessoa das artes”. Surgidas durante o período Edo (1603-1868), as gueixas eram artistas treinadas em um amplo conjunto de habilidades, como dança, música e cerimônia do chá.
Curiosamente, os primeiros "gueixas" eram homens, conhecidos como taikomochi. Porém, as mulheres logo assumiram esse papel, trazendo uma nova dimensão de graça e beleza. Eram hábeis em criar uma atmosfera intimista e emocionalmente envolvente durante os encontros, algo que ia além do que os taikomochi tradicionalmente ofereciam.
As gueixas não eram prostitutas, como muitas vezes foram confundidas. Elas eram, e ainda são, símbolos de uma tradição que valoriza a arte como meio de conexão e entretenimento sofisticado.
A maquiagem e o traje são elementos fundamentais de sua apresentação. As maiko usam maquiagem vibrante: uma base branca, lábios pintados de vermelho e olhos delineados, que destacam sua juventude e vivacidade. À medida que amadurecem, as gueixas adotam uma aparência mais natural, refletindo a sobriedade e a experiência que acumulam com o tempo. Os quimonos, por sua vez, são peças elaboradas e caras, escolhidas de acordo com o período do ano e a ocasião, com padrões que simbolizam status e sofisticação.
O universo estético e artístico

As gueixas são conhecidas por sua maestria em diversas artes tradicionais japonesas. Suas danças, como a kyo-mai, são narrativas delicadas que misturam movimento e emoção. A música desempenha um papel central, com o shamisen criando melodias que acompanham as performances.
Além disso, a cerimônia do chá, realizada com precisão e graça, exemplifica o cuidado das gueixas com os detalhes. Elas também dominam a arte da conversação, sendo capazes de entreter intelectualmente seus convidados e criar uma atmosfera de conforto e admiração.
São a personificação do conceito estético de iki, que celebra a sofisticação com simplicidade.
Desde o quimono cuidadosamente escolhido para refletir as estações, até os movimentos graciosos nas danças, cada detalhe é planejado para transmitir elegância e mistério.
O conceito de yūgen, a beleza do que é sugerido e não explicitado, também está presente.
A sensualidade das gueixas não está na ostentação, mas em gestos sutis, como o leve ajuste de um quimono ou a nuca descoberta. Sua arte – seja tocando o shamisen, dançando ou conduzindo uma conversa refinada – evoca emoções profundas sem palavras óbvias.
A relação com o danna: autonomia ou dependência?
Um dos aspectos mais intrigantes da vida das gueixas é sua relação com o danna.
O danna era um patrono que financiava os altos custos da vida de uma gueixa, incluindo quimonos luxuosos e treinamento.
Embora essa relação pudesse criar uma certa dependência financeira, as gueixas mantinham uma independência única: escolhiam se aceitavam ou não um danna e continuavam a gerenciar suas carreiras.
Essa dualidade – entre dependência material e autonomia artística – fazia das gueixas figuras paradoxais. Elas desafiavam os papéis femininos tradicionais ao serem economicamente ativas e culturalmente influentes, mas dentro de limites sociais impostos pela época.
As gueixas hoje – tradição em transformação

Com o passar do tempo, o número de gueixas diminuiu, mas sua relevância cultural persiste. Em distritos como Gion, em Kyoto, as gueixas continuam a encantar com suas performances, agora também atraindo turistas curiosos. Elas se adaptaram à modernidade, mas sem perder o vínculo com suas raízes.
Hoje, não são apenas símbolos da cultura japonesa; são também embaixadoras de uma filosofia de vida que valoriza a arte, a sensibilidade e o mistério.
Uma reflexão final
As gueixas continuam fascinando o mundo por sua habilidade de transformar simplicidade em arte e de manter vivo o legado cultural do Japão tradicional.
Em um mundo acelerado e ávido por respostas imediatas, será que ainda há espaço para o mistério e a beleza do que é apenas insinuado?
Talvez o segredo esteja justamente em aprender com elas essa outra forma de ser, tentando perceber a profundidade que existe no que é sutil ou sugerido, em oposição ao que é simplesmente óbvio ou imediato.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]
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