Cultura

O que nos incomoda mais, o outro ou o que ele não é?

Explorando como os mitos antigos ainda influenciam nossas vidas e relações contemporâneas

Pigmalião e Galateia, de Falconet, 1763
Pigmalião e Galateia, de Falconet, 1763
Marlene Polito

por Marlene Polito

Publicado em 31/03/2026, às 10h37


Os mitos não passaram

Os mitos não pertencem ao passado.
Pertencem ao que em nós não passou.

Não são histórias antigas, confinadas a um tempo remoto, mas formas simbólicas de organizar aquilo que permanece: desejos, medos e conflitos, forças pelas quais o homem procura dar conta da própria vida, buscando autonomia, querendo vencer e, sobretudo, tentando ir além dos próprios limites.

Mudam os cenários, transformam-se os costumes, mas certas estruturas continuam a se repetir. Entre esses mitos, um permanece particularmente revelador.

Pigmalião e Galateia.

Pigmalião, escultor de reconhecida habilidade, vivia desiludido com as mulheres de sua época. Não encontrava nelas aquilo que julgava essencial. Em vez de insistir na busca, tomou outro caminho: decidiu criar.

Esculpiu em marfim a figura de uma jovem de beleza tão perfeita que parecia respirar. Encantou-se com a própria obra e passou a tratá-la como viva: acariciava-a, oferecia-lhe presentes.

Durante um festival em honra a Afrodite, pede à deusa alguém semelhante àquela figura. Afrodite, sensibilizada, vai além: dá vida à estátua. Galateia respira, move-se, corresponde. À primeira vista, trata-se de uma história de amor. Talvez não seja. É um dos mitos mais inquietantes que temos.

O fascínio pelo ideal, e o risco de amar o que não existe

Pigmalião não ama uma mulher. Ama uma projeção. O que exatamente ele amou? A mulher ... ou a ideia que fez dela? Há, nesse gesto, algo que ultrapassa o fascínio pela beleza. Ele não encontra. Ele fabrica. E esse detalhe muda tudo.

Ao rejeitar o mundo concreto e optar pela criação de um ideal, o escultor elimina o imprevisto. Como criação ideal, sua Galateia não contraria, não surpreende, não impõe limites. É perfeita porque é previsível.

Talvez por isso seduza. Criamos versões idealizadas, do outro e de nós mesmos. E nos frustramos quando a realidade não corresponde. É nesse ponto que o mito deixa de ser antigo.

O desejo de moldar o outro

Esse é, talvez, o aspecto mais incômodo. Pigmalião não apenas ama, ele cria. Ele molda. E esse gesto ecoa de forma silenciosa no cotidiano: nas relações em que um tenta “lapidar” o outro, nas expectativas que, sob aparência de cuidado, sufocam, na tentativa constante de transformar alguém em algo que ele não é.

A psicologia reconhece esse movimento no chamado “efeito Pigmalião”: as expectativas que projetamos sobre o outro podem influenciar, de fato, a maneira como ele age.

Mas o mito sugere algo mais delicado. Nem toda tentativa de moldar nasce do cuidado. Às vezes, nasce da dificuldade de aceitar.

Em muitas relações, o amor se confunde com um projeto silencioso de transformação: corrigir, ajustar, lapidar, como se o outro fosse matéria em estado bruto, à espera de acabamento.

Mas até que ponto ainda é amor quando o outro precisa ser redesenhado?

Quando a obra ganha vida, e escapa do criador

No mito, Galateia ganha vida. Mas… e depois? O criador ainda controla a criatura? Ou ela passa a existir por si? Essa pergunta atravessa não só relações pessoais – pais e filhos, mestres e aprendizes –, mas a própria ideia de criação. O que acontece quando aquilo que concebemos deixa de nos pertencer?

Séculos depois, essa questão reaparece sob nova forma nas mãos de George Bernard Shaw. Em Pygmalion, transplantado para o cinema em My Fair Lady, já não é o mármore que se transforma, mas a linguagem. O professor Higgins aposta que pode moldar uma jovem humilde, Eliza Doolittle, ensinando-lhe a falar como uma dama.

“My Fair Lady”, filme de George Cuckor, 1964
“My Fair Lady”, filme de George Cuckor, 1964

A princípio, o gesto parece o mesmo: dar forma ao outro. Mas aqui surge uma ruptura decisiva. Mais do que uma história de transformação social, a peça revela algo mais profundo: como passamos a ocupar um lugar no mundo. Eliza não muda apenas a forma de falar. Muda a forma como é vista, e como passa a se ver. A linguagem não apenas descreve. Ela constrói.

Higgins “esculpe” Eliza palavra por palavra. Mas, ao final, o que emerge já não pode ser controlado.

Galateia nasce para corresponder. Eliza aprende e reage. Ganha voz e, com ela, autonomia. Pela primeira vez, a criação não apenas ganha vida. Ela responde. Já no século XX, Salvador Dalí leva essa ruptura ainda mais longe.

Galateia das esferas, de Dalí, 1952
Galateia das esferas, de Dalí, 1952

Em Galateia das esferas, a figura não se apresenta como unidade, mas como fragmento. O rosto existe e, ao mesmo tempo, dissolve-se.

Se Pigmalião buscava a forma perfeita, e Shaw revelava a voz que emerge dessa forma, Dalí parece sugerir algo ainda mais inquietante: não há forma final. O que vemos nunca é inteiro. São partes, aproximações, tentativas de entender.

O que permanece

Do mármore do mito à palavra de Shaw e à fragmentação de Dalí, Galateia atravessa o tempo revelando menos sobre a mulher criada e mais sobre o olhar de quem a contempla.

Hoje, esse movimento se intensifica. Vivemos cercados por imagens construídas, versões editadas, identidades cuidadosamente montadas. Nas redes sociais, cada perfil pode ser uma Galateia: ajustada, filtrada, controlada.

Mas o real, como no mito, insiste em escapar. No fim, talvez o que nos incomode não seja o outro, mas aquilo que ele insiste em não ser.