Explore como o salto alto se tornou um símbolo de poder e prestígio na história da masculinidade

por Marlene Polito
Publicado em 10/02/2026, às 11h37
O corpo como linguagem
O retrato de Luís XIV nos olha como um enigma. O salto alto, as rendas, a peruca monumental. Tudo ali parece deslocado em relação ao que hoje chamamos de masculinidade. A figura escapa aos nossos códigos.
E ficamos, quase inevitavelmente, com a mesma pergunta: por quê? O que esse corpo, tão cuidadosamente encenado, estava tentando dizer?
Mudar o ponto de vista é o primeiro passo. Recuar no tempo e admitir que o corpo nunca foi neutro permite perceber que a sua história não é linear, mas cheia de desvios e reinvenções. Em cada época, ele se veste de símbolos que tornam visível o poder, o prestígio, o pertencimento.
Esses símbolos não surgem de forma abstrata; eles se materializam em contextos históricos concretos.
Um breve desvio pela história

Na Europa moderna, o salto alto foi um desses símbolos privilegiados. Reis, aristocratas e cavaleiros exibiam saltos, rendas, perucas e maquiagem sem que isso ameaçasse sua virilidade. Ao contrário: quanto mais exuberante o corpo, mais visível o poder. A ideia de que salto alto é um atributo feminino é uma invenção recente. E reveladora.
Os primeiros saltos surgiram entre cavaleiros persas, como recurso técnico para fixar o pé no estribo. No final do século XVI, delegações persas impressionaram as cortes europeias com suas botas, tecidos e ornamentos. A aristocracia, sempre ávida por distinção, apropriou-se desse detalhe funcional e o transformou em símbolo de prestígio. O salto evocava a tradição guerreira da cavalaria, mesmo quando o aristocrata já não lutava; elevava fisicamente o corpo, produzindo uma hierarquia visível entre quem estava acima e quem permanecia no chão; e, impraticável para o trabalho manual, sinalizava o privilégio do ócio. O que era tecnologia militar converteu-se em ornamento político.
Na Europa barroca dos séculos XVII e XVIII, especialmente nas cortes absolutistas, o corpo masculino era deliberadamente teatral. Nobres exibiam meias de seda, rendas, perfumes intensos e saltos elaborados. O poder precisava ser visto. Retratos de Luís XIV mostram um monarca elevado sobre saltos vermelhos, envolto em tecidos luxuosos e perucas monumentais.
O salto não apenas erguia o corpo; elevava a própria monarquia, transformando o rei em espetáculo contínuo.
A invenção da sobriedade

Entre os séculos XVIII e XIX, ocorre uma virada decisiva. A ascensão da burguesia desloca o prestígio do nascimento para o trabalho, da ostentação para a moralidade. O ornamento aristocrático passa a parecer decadência, vestígio de um mundo em declínio.
O Iluminismo reforça essa mudança ao valorizar a razão, a clareza e a funcionalidade. A teatralidade exuberante passa a representar um mundo a ser superado.
Surge então uma nova ética de disciplina. O corpo masculino deixa de ser espetáculo e se torna instrumento: produtivo, previsível, eficiente. O traje austero, traduz essa nova gramática do poder. A masculinidade moderna nasce quando o poder decide tornar-se discreto.
O resultado simbólico é decisivo. O homem moderno torna-se sóbrio, quase invisível. O ornamento é deslocado para o corpo feminino, convertido em vitrine estética da distinção social. Em uma sociedade que separa o mundo da produção e o mundo da representação, o homem encarna a disciplina do trabalho; a mulher, a visibilidade do prestígio – uma parte da economia simbólica da família burguesa.
O retorno do brilho
O que hoje parece natural é, na verdade, uma decisão histórica. O salto alto não é intrinsecamente feminino ou masculino. Ele se torna feminino ou masculino quando uma cultura assim o define.
O corpo sempre esteve implicado em regimes de visibilidade. O que muda, ao longo do tempo, não é o fato de aparecer, mas as regras dessa aparição: quem pode ser visto, de que maneira e o que cada sociedade reconhece como aparência legítima. Quando o poder precisava ser exibido, o corpo masculino se ornava e se elevava; quando passou a operar pela disciplina do trabalho, tornou-se discreto,
O que hoje chamamos de retorno do ornamento masculino não indica nostalgia nem provocação gratuita. Indica uma mudança nas condições de visibilidade. A aparência deixou de ser excesso e passou a integrar o modo de presença pública. O salto alto, nesse contexto, deixa de falar de dominação e passa a falar de presença.
Antes que as ideias se organizem em discurso, o corpo já mudou de forma.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]
Leia também

Rede própria da Hapvida amplia acesso a transplantes de órgãos em São Paulo

Transplante hepático marca nova fase da Hapvida em procedimentos de alta complexidade

Quando os homens usavam salto alto

ACTA garante que obras da Sabesp no Valongo não afetarão logística de caminhoneiros em Santos

Chuva abre cratera em frente a prédio com histórico de problemas estruturais em São Vicente

Sistema "Muralha" e alerta popular ajudam PM a capturar procurada em Itanhaém

Câmara Municipal de Santos debate reajuste e benefícios

Defesa Civil alerta que Guarujá e Bertioga seguem sob risco de deslizamento; Santos deixa lista de atenção

Veja a lista dos bairros mais perigosos de Guarujá; Pae Cará lidera o ranking de crimes em 2025

Quando os homens usavam salto alto