Cultura

Quando os homens usavam salto alto

Explore como o salto alto se tornou um símbolo de poder e prestígio na história da masculinidade

Luís XIV em traje de coroação Hyacinthe Rigaud, 1701 - /Pesquisar
Luís XIV em traje de coroação Hyacinthe Rigaud, 1701 - /Pesquisar
Marlene Polito

por Marlene Polito

Publicado em 10/02/2026, às 11h37


O corpo como linguagem

O retrato de Luís XIV nos olha como um enigma. O salto alto, as rendas, a peruca monumental. Tudo ali parece deslocado em relação ao que hoje chamamos de masculinidade. A figura escapa aos nossos códigos.

E ficamos, quase inevitavelmente, com a mesma pergunta: por quê? O que esse corpo, tão cuidadosamente encenado, estava tentando dizer?

Mudar o ponto de vista é o primeiro passo. Recuar no tempo e admitir que o corpo nunca foi neutro permite perceber que a sua história não é linear, mas cheia de desvios e reinvenções. Em cada época, ele se veste de símbolos que tornam visível o poder, o prestígio, o pertencimento.

Esses símbolos não surgem de forma abstrata; eles se materializam em contextos históricos concretos.

Um breve desvio pela história

Cavaleiro persa (Safávida)    -  Acervo do British Museum.
Cavaleiro persa (Safávida) - Acervo do British Museum.

Na Europa moderna, o salto alto foi um desses símbolos privilegiados. Reis, aristocratas e cavaleiros exibiam saltos, rendas, perucas e maquiagem sem que isso ameaçasse sua virilidade. Ao contrário: quanto mais exuberante o corpo, mais visível o poder. A ideia de que salto alto é um atributo feminino é uma invenção recente. E reveladora.

Os primeiros saltos surgiram entre cavaleiros persas, como recurso técnico para fixar o pé no estribo. No final do século XVI, delegações persas impressionaram as cortes europeias com suas botas, tecidos e ornamentos. A aristocracia, sempre ávida por distinção, apropriou-se desse detalhe funcional e o transformou em símbolo de prestígio. O salto evocava a tradição guerreira da cavalaria, mesmo quando o aristocrata já não lutava; elevava fisicamente o corpo, produzindo uma hierarquia visível entre quem estava acima e quem permanecia no chão; e, impraticável para o trabalho manual, sinalizava o privilégio do ócio. O que era tecnologia militar converteu-se em ornamento político.

Na Europa barroca dos séculos XVII e XVIII, especialmente nas cortes absolutistas, o corpo masculino era deliberadamente teatral. Nobres exibiam meias de seda, rendas, perfumes intensos e saltos elaborados. O poder precisava ser visto. Retratos de Luís XIV mostram um monarca elevado sobre saltos vermelhos, envolto em tecidos luxuosos e perucas monumentais.

O salto não apenas erguia o corpo; elevava a própria monarquia, transformando o rei em espetáculo contínuo.

A invenção da sobriedade

Retrato masculino burguês da coleção do Musée d’Orsay, Paris (século XIX)
Retrato masculino burguês da coleção do Musée d’Orsay, Paris (século XIX)

Entre os séculos XVIII e XIX, ocorre uma virada decisiva. A ascensão da burguesia desloca o prestígio do nascimento para o trabalho, da ostentação para a moralidade. O ornamento aristocrático passa a parecer decadência, vestígio de um mundo em declínio.

O Iluminismo reforça essa mudança ao valorizar a razão, a clareza e a funcionalidade. A teatralidade exuberante passa a representar um mundo a ser superado.

Surge então uma nova ética de disciplina. O corpo masculino deixa de ser espetáculo e se torna instrumento: produtivo, previsível, eficiente. O traje austero, traduz essa nova gramática do poder. A masculinidade moderna nasce quando o poder decide tornar-se discreto.

O resultado simbólico é decisivo. O homem moderno torna-se sóbrio, quase invisível. O ornamento é deslocado para o corpo feminino, convertido em vitrine estética da distinção social. Em uma sociedade que separa o mundo da produção e o mundo da representação, o homem encarna a disciplina do trabalho; a mulher, a visibilidade do prestígio – uma parte da economia simbólica da família burguesa.

O retorno do brilho

O que hoje parece natural é, na verdade, uma decisão histórica. O salto alto não é intrinsecamente feminino ou masculino. Ele se torna feminino ou masculino quando uma cultura assim o define.

O corpo sempre esteve implicado em regimes de visibilidade. O que muda, ao longo do tempo, não é o fato de aparecer, mas as regras dessa aparição: quem pode ser visto, de que maneira e o que cada sociedade reconhece como aparência legítima. Quando o poder precisava ser exibido, o corpo masculino se ornava e se elevava; quando passou a operar pela disciplina do trabalho, tornou-se discreto,

O que hoje chamamos de retorno do ornamento masculino não indica nostalgia nem provocação gratuita. Indica uma mudança nas condições de visibilidade. A aparência deixou de ser excesso e passou a integrar o modo de presença pública. O salto alto, nesse contexto, deixa de falar de dominação e passa a falar de presença.

Antes que as ideias se organizem em discurso, o corpo já mudou de forma.