Deputado estadual disse em entrevista que priorizaria a fé cristã ao votar, mesmo diante de corrupção. A declaração choca com sua própria trajetória na Justiça, onde responde por agressão à ex-mulher

Jair Viana Publicado em 08/07/2026, às 19h55
Discursos que tentam suavizar a corrupção não são exatamente novidade na política brasileira. Mas a forma escolhida por Lucas Bove (PL-SP) chamou atenção: ele recorreu à religião.
Durante entrevista ao podcast Iron Talks, o deputado estadual declarou que, tendo de escolher entre dois políticos corruptos, votaria no cristão, argumentando que isso ajudaria a impedir uma reeleição de Lula. Com a afirmação, ele colocou a fé acima da honestidade como fator decisivo de escolha eleitoral.
A frase soa ainda mais contraditória vinda de um deputado que costuma se posicionar como defensor da moral, da família e dos valores religiosos — pauta que perdeu força diante das acusações feitas por sua ex-esposa, que relata ter sofrido agressões físicas e psicológicas.
Atualmente, o parlamentar é réu por violência doméstica e por desrespeitar medidas protetivas concedidas à ex-companheira. O episódio teve grande repercussão, foi parar no Conselho de Ética da Alesp e ainda segue sendo julgado pela Justiça. Bove nega as acusações.
Ao insinuar que a fé cristã pode compensar a falta de honestidade de um candidato, o deputado relativiza a corrupção e passa a entender que a identificação religiosa seria suficiente para validar um voto — deixando de lado critérios como ética, transparência e zelo com recursos públicos.
Isso revela uma contradição de difícil justificativa: quem transforma a fé em plataforma política e cobra postura moral de opositores acaba, inevitavelmente, sendo cobrado da mesma forma. E essa cobrança pesa ainda mais quando o próprio parlamentar responde judicialmente por temas ligados justamente aos valores que professa defender.
A reportagem entrou em contato com a assessoria de Lucas Bove para perguntar sobre a declaração dada no podcast e sobre a contradição com sua situação na Justiça. O assessor Helder Bertazzi respondeu que o deputado não vai se pronunciar sobre o assunto.
Ao fim, a fala de Bove não apenas fragiliza discursos de combate à corrupção, mas também reacende uma discussão antiga: até que ponto a religião pode servir para relativizar exigências básicas da vida pública. Colocando fé à frente da ética, o deputado reabre um debate sobre os limites entre convicção religiosa e responsabilidade no exercício de um cargo público.
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