Um olhar sobre como amores que não cabem nas normas sociais se tornam eternos na arte e na literatura, desafiando o tempo

por Marlene Polito
Publicado em 20/05/2025, às 11h32
“Faço pacto com a estrela / Que arrasta o tempo como ar / Na distância, passe depressa / Se junto a mim, bem devagar.” (Bruno Torres, “Ela”)
Os versos são de um jovem poeta, que fala de um amor que não segue o compasso do mundo. Um amor que quer dobrar o tempo, driblar a ausência, e resistir, mesmo quando há incerteza e medo.
Há amores assim - “fenômeno astral/ força da natureza”. Surgem fora de hora, fora da regra, fora do previsto. Amores que não cabem no calendário, nem nas fórmulas. Amores que desafiam o normal e, por isso, tocam o essencial. É desses que trata este texto.
O amor que não podia ser
Alguns amores não têm lugar. Não cabem no altar, na moral, na lei, nem nos olhos alheios. Quando surgem, desafiam convenções, desarrumam certezas, expõem desejos ocultos. São vividos à sombra, à margem, e talvez por isso brilhem mais.
Todo amor proibido talvez carregue um pacto silencioso com o abismo. Quem o vive, sabe: pode não durar, pode ferir ou destruir. E, mesmo assim, você mergulha. Porque neles há algo que escapa à lógica. Eles revelam a fragilidade das normas e, principalmente, a força do desejo.
E será na arte que encontrarão refúgio: onde o interdito vira exaltação.
Quando amar era pecado

“O Beijo” (1882), de Rodin - O gesto condenado por Dante, eternizado no mármore.
Mesmo quem nunca leu Dante reconhece o beijo de Rodin. Na escultura, dois corpos nus se inclinam um para o outro, quase tocando os lábios. São Francesca e Paolo, amantes italianos do século XIII. Ela era casada com o irmão dele. Quando o adultério foi descoberto, foram mortos pelo marido traído. Dante os colocou no Inferno; Rodin, ao contrário, os transformou em arte. O que a religião e a honra condenaram, a escultura redimiu.
Na tradição ocidental, o amor proibido nasceu junto do mito. Afrodite e Ares, por exemplo, deuses do amor e da guerra, foram surpreendidos em adultério por Hefesto, o marido traído, que os expôs ao ridículo diante do Olimpo.
A arte, entretanto, não se curva ao protocolar. Para ela, o gesto que desafia pode ser sublime. Paolo e Francesca, amantes que morreram por não resistirem, são salvos pela escultura. “O beijo interrompido” é eternizado no instante da entrega.
Quando amar era desobediência

“Romeu e Julieta” (1884), de Frank Dicksee. O amor que não obedece.
Há amores que não nascem do pecado, mas da recusa. Romeu e Julieta não obedeceram. Não ao nome, à linhagem, à lógica da guerra entre famílias. Eram jovens demais, intensos demais, mas escolheram amar. E pagaram com a vida.
Esse tipo de amor não desafia deuses, mas convenções. Nasce em tempos em que o casamento é acordo, não escolha. Em que a paixão não é virtude, mas fraqueza. Em que a mulher deve calar e o homem deve seguir a linha reta da honra. Por isso Emma Bovary e Capitu incomodam: porque desejam, sonham, desviam-se. Ainda que o desvio seja só imaginado.
Amar, aqui, é uma forma de insubordinação. E, por isso mesmo, uma afirmação da liberdade.
Quando amar era escândalo

“A Idade Madura” (1899), de Camille Claudel. O amor que implora, mas é recusado.
No século XIX, o amor deixou de ser apenas uma questão moral para se tornar também uma questão pública. O escândalo não estava apenas no pecado ou na desobediência, mas no fato de o amor sair do quarto e chegar aos jornais, aos salões, aos tribunais – ou às clínicas psiquiátricas.
Camille Claudel, escultora extraordinária, viveu uma história intensa com Rodin, seu mestre e amante. Enquanto ele era celebrado, ela foi pouco a pouco apagada. O ciúme, o abandono e a incompreensão da época a levaram ao internamento. Passou mais de trinta anos em um asilo. Suas esculturas sobrevivem – partidas, perturbadoras. O amor proibido, para ela, foi ruína e legado.
Poderíamos lembrar também de George Sand e Frédéric Chopin: ela, mulher que escrevia, fumava, vestia-se como homem e amava à sua maneira; ele, frágil, conservador, musicalmente genial. A relação escandalizou Paris, mais pelo comportamento dela do que pelo amor em si.
Amar, nesse tempo, era também enfrentar o olhar do outro. Ser julgado. Ser devorado.
Quando o amor vira arte

Oscar Wilde e o manuscrito de “De Profundis”.
Entre o Inferno de Dante, o palco de Shakespeare e o ateliê de Camille, uma verdade permanece: o amor proibido sempre encontrou abrigo na arte. A sociedade tenta calar, julgar, apagar. Mas a escultura, a literatura e o teatro não se rendem. Onde há desejo, há criação. Onde há transgressão, há símbolo.
Oscar Wilde, condenado à prisão por amar outro homem, escreveu uma defesa comovente da paixão em De Profundis. Suas palavras revelam que, mesmo sob o peso da vergonha pública, o amor – e a arte – não se dobram. Não à lei, nem à opinião, nem à moral.
Talvez por isso esses romances nos comovam tanto: porque revelam o mais humano em nós. Amar, mesmo quando não se deve. E transformar a dor em linguagem, o interdito em beleza, o escândalo em eternidade.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]
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