Descubra como a tatuagem se tornou uma forma de comunicação simbólica antes mesmo da escrita existir

por Marlene Polito
Publicado em 03/06/2025, às 12h47
Antes de a escrita nascer, os corpos já falavam.
Marcas, cortes, tintas: os povos antigos contavam suas histórias sobre a pele. A tatuagem, nesse sentido, é anterior à linguagem escrita. Antes de papiros, pergaminhos ou telas digitais, já havia o desejo de registrar o que se sentia. E foi o corpo quem primeiro se ofereceu como suporte.
Muito antes da invenção da escrita, o corpo humano já servia como meio de comunicação simbólica. Pinturas corporais, escarificações e tatuagens indicavam pertencimento, conquistas, fases da vida, proteção espiritual ou castigo. Uma forma de “proto-escrita”
A tatuagem como linguagem

Tatuar é falar sem voz. Cada traço comunica, mesmo quando o significado escapa a quem vê. Para quem carrega a marca, ela diz. Diz de um amor, de uma dor, de uma escolha, de uma crença. Diz de si.
É uma linguagem íntima, escrita com agulha. Carrega memória, identidade, desejo. Mesmo quando parece só forma, sempre há um porquê. Algo que quer ser lembrado, reconhecido, ouvido – mesmo em silêncio.
Perspectiva histórica e antropológica
Desde os primeiros vestígios humanos, o corpo já falava. Um fazendeiro neolítico foi sepultado com tridentes azuis gravados na pele. Não sabemos seu nome, mas suas tatuagens sobreviveram.
No Egito Antigo, mulheres tatuavam símbolos sobre o ventre. Talvez sinais de fertilidade. Talvez artifício de sedução. Talvez mistério. A tatuagem ali era prática comum, aceita, e possivelmente sagrada.
Na Roma Antiga, os contrastes já estavam dados: soldados recebiam marcas de devoção; escravos e criminosos, sentenças visíveis no corpo. A pele denunciava antes que o gesto acontecesse.
Com o cristianismo, a tatuagem perdeu espaço na Europa. O Concílio de Nicéia II, no século VIII, condenou as marcas no corpo. Durante a Idade Média, ela foi vista como profanação, e por séculos quase desapareceu do Ocidente.
No Renascimento, a simetria ideal do corpo afastava interferências. A tatuagem parecia selvagem demais. Ainda assim, fora da Europa, seguia viva, como rito, marcas de fé e signos de pertencimento.
Com as grandes navegações, ela retornou ao imaginário europeu. Exploradores como James Cook trouxeram a palavra tatau — que imitava o som da agulha batendo na pele —e também a curiosidade estética e simbólica.
No século XIX, em plena era vitoriana, ela ressurgiu com ambiguidade: proibida aos pobres, tolerada entre nobres. Príncipes britânicos exibiam tatuagens orientais. Senhoras pigmentavam discretamente os lábios. Uma beleza “natural” desenhada com precisão.
Tatuagem no Japão: arte e exclusão

Tatuagem Japonesa Tradicional (Irezumi)
No Japão, a tatuagem teve dois caminhos. De um lado, os irezumi, obras ricas executadas por mestres, transformavam o corpo em narrativa: dragões, ondas, carpas, flores. De outro, o estigma: associada à máfia e à delinquência, tornou-se sinal de exclusão. Muitos desses homens viviam à margem, afastados da sociedade.
A arte, no entanto, resistiu. Hoje, algumas peles tatuadas por grandes mestres são doadas após a morte e preservadas como arte. A Universidade de Tóquio abriga mais de 300 dessas peles emolduradas. Vidas definidas por agulha e tinta. Gente que desejou se tornar seu próprio texto.

Peles Tatuadas Preservadas no Japão
polícia de Tóquio a identificar corpos. A pele tatuada é única, e, por isso, identificável. O que foi marca de exclusão um dia tornou-se agora traço de reconhecimento.
O corpo como texto na contemporaneidade
Hoje, tatuar-se é escrever-se. Cada traço revela algo, às vezes um segredo, às vezes um orgulho. O corpo vira diário, altar, estandarte.
Há quem tatue para lembrar. Outros, para esquecer. Algumas marcas celebram. Outras protestam. Há também as que apenas enfeitam, como quem decora a casa em que habita.

Tatuagem Egípcia: Símbolo Ankh (símbolo da vida) e Olho de Hórus (proteção e poder)
Mais do que estética, a tatuagem é escolha. Um modo de dizer “eu sou assim”, mesmo que em silêncio. E em tempos em que tudo se exibe, o corpo tatuado é arte viva, portátil, intransferível.
Conclusão
A tatuagem ao longo da história oscilou entre o sagrado e o proibido, o enfeite e o castigo. Foi linguagem antes da linguagem, marca de pertencimento, exclusão, fé, beleza e rebeldia.
Hoje, ela ressurge como escolha pessoal, mas ainda ecoa o que já foi. Um gesto íntimo, que também reflete o seu tempo, a história, o olhar do outro.
Marcar a pele é reconhecer que o corpo fala, responde, se lembra. Em tempos de identidade fluida, a tatuagem é ato de permanência, ainda que em superfície. Como se dissesse: aqui estou, neste corpo, com esta história, nesta pele.
Mais que vaidade, há nela um desejo de presença. Uma tentativa de tornar visível o que somos, quando tantas vezes somos reduzidos a silêncio.
No fim, talvez a tatuagem seja só isso: uma forma de habitar o próprio corpo com consciência — e deixá-lo dizer, por linhas e cores, aquilo que nos marca.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]
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