Cultura

Entre tranças e serpentes

Explore como os cabelos em contos de fadas refletem desejos e libertações, de Rapunzel a Medusa

Penteado contemporâneo: quando o cabelo vira escultura, tendência e afirmação de estilo
Penteado contemporâneo: quando o cabelo vira escultura, tendência e afirmação de estilo
Marlene Polito

por Marlene Polito

Publicado em 30/06/2026, às 09h37


Às vezes penso que a gente subestima os contos de fadas. Rapunzel, por exemplo. Rapunzel provavelmente não tinha condicionador, mas tinha um cabelo que resolvia problemas. E isso já diz muito.

Na história, o cabelo não é apenas enfeite. É o que ultrapassa a torre. O corpo está preso, mas as tranças descem. Pelos cabelos, a bruxa entra; pelos cabelos, o príncipe chega. Não é só uma trança longa: é o fio que liga isolamento, desejo e libertação.

Nos contos de fadas, Rapunzel oferecia uma trança bastante funcional, quase um elevador antes da engenharia moderna. Nos mitos gregos, porém, o penteado podia ser menos hospitaleiro.

Medusa, por exemplo, exige mais cuidado. Em uma das versões conhecidas do mito, narrada por Ovídio em Metamorfoses, ela teria sido uma jovem belíssima, admirada pelos cabelos. Depois de ser violentada por Poseidon no templo de Atena, foi castigada pela deusa: seus cabelos viraram serpentes. A mitologia, como se vê, nem sempre distribui justiça com muito equilíbrio. Quem a olhasse diretamente era transformado em pedra.

Uma cabeça resolvia o problema do encontro; a outra criava problemas para quem chegasse perto demais. Entre a trança de Rapunzel e as serpentes de Medusa, já se percebe que os cabelos, na imaginação humana, nunca foram simples detalhe.

Caravaggio, Medusa, c. 1597
Caravaggio, Medusa, c. 1597

Nem é preciso atravessar o mundo em busca de exemplos considerados “exóticos” pelo nosso olhar. Perto de nós, a história europeia já foi capaz de transformar cabelos, perucas e penteados em teatro social e, às vezes, em espetáculo de arquitetura capilar.

Nas cortes europeias, aparência não era detalhe. Era linguagem. Um gesto, uma renda, uma peruca ou um penteado podiam indicar posição, poder, ambição e pertencimento.

No século XVIII, essa linguagem subiu literalmente à cabeça. Caroline Weber, em Queen of Fashion, mostra como Maria Antonieta fez da moda uma forma de presença pública. Seus penteados, com flores, plumas, fitas e miniaturas, alcançavam alturas quase monumentais. A cabeça da rainha tornava-se vitrine, palco, notícia e quase boletim político com laquê.

Um dos exemplos mais famosos foi o penteado inspirado na fragata Belle Poule, depois de uma vitória naval francesa. Não bastava torcer pela França. Era possível levar um navio na cabeça. Convenhamos: há patriotismos menos trabalhosos.

Coëffure à la Belle Poule en 1778, gravura de moda
Coëffure à la Belle Poule en 1778, gravura de moda

Mas seria injusto culpar apenas Maria Antonieta por essa antiga obsessão capilar. Muito antes e muito depois dela, os cabelos continuaram informando alguma coisa: idade, sedução, disciplina, vaidade, fé, rebeldia ou simples vontade de mudar de vida. Às vezes, também falaram de ausência.

Em alguns rituais de luto, foram cortados, guardados ou transformados em lembrança. Uma mecha podia virar relíquia íntima, joia, vestígio de quem partiu. Quando alguém desaparece, aquilo que permanece do corpo ganha uma estranha força de presença.

Também seria impossível ignorar os cabelos como gesto de rebeldia e pertencimento. Cabelos longos já irritaram famílias, escolas, quartéis e escritórios. Cabeças raspadas já indicaram renúncia, protesto ou ruptura. Cachos, tranças e cabelos naturais também se tornaram afirmação diante de padrões estreitos de beleza. Às vezes, mudar o cabelo é apenas mudar o visual. Em outras, é mudar a posição diante do mundo.

Na vida moderna, o corpo deixou de ser apenas algo que temos. Passou a fazer parte daquilo que construímos, mostramos e revemos continuamente. A aparência, nesse sentido, não é simples vaidade. Hoje, diante do espelho e da câmera, ela continua dizendo alguma coisa sobre nós.

E poucos lugares contam essa narrativa com tanta rapidez quanto os cabelos. Eles anunciam fases, disfarçam cansaços, dramatizam decisões e prometem recomeços. Há quem corte depois de uma separação, quem pinte antes de uma viagem, ou assuma os fios brancos como declaração de paz, ou de guerra, com o tempo. Às vezes, a mudança é profunda. Às vezes, é só uma franja. Mas quem já teve uma franja mal resolvida sabe que nada é “só uma franja”.

Na cultura das imagens, o cabelo ganhou ainda mais trabalho. Precisa aparecer bem na foto, resistir ao vento, sobreviver à umidade, obedecer ao espelho. Tornou-se parte desse pequeno teatro diário em que tentamos parecer naturais depois de algum esforço. Muito esforço, às vezes.

E talvez seja justamente aí que os cabelos continuem tão interessantes. Parecem assunto leve, quase frívolo, mas raramente são inocentes. Crescem no corpo, passam pelo espelho e acabam entrando na cultura. Às vezes obedecem. Às vezes desafiam. Às vezes apenas denunciam o cansaço de parecer sempre a mesma pessoa.

No fim, talvez Rapunzel e Medusa continuem nos fazendo companhia porque representam dois extremos dessa longa história. De um lado, a trança que desce da torre e promete encontro. De outro, as serpentes que transformam qualquer aproximação em risco. Entre uma e outra, seguimos nós, tentando decidir o que fazer com os cabelos – e o que eles insistem em dizer sobre nós.