Investigação

Manipulação? Laudo desmente versão inicial do caso de Thiago Brennand e a agressão à modelo

O acontecimento teria sido registrado em uma academia, em São Paulo

Caso de Thiago Brennand e a agressão à modelo. - Imagem: reprodução I Redes sociais
Caso de Thiago Brennand e a agressão à modelo. - Imagem: reprodução I Redes sociais

Jair Viana Publicado em 23/10/2023, às 16h57


Thiago Brennand é acusado de uma série de estupros e agressões a várias vítimas, com os casos que também contam com contradições entre os envolvidos, além de vídeos, áudios e documentos que demonstram grande inconsistência. 

Um laudo obtivo com exclusividade pelo Diário de S.Paulo desmente a primeira versão do caso que traz à tona os demais, em que estão envolvidos a modelo Helena Gomes e Thiago, na academia BodyTech, de São Paulo

A briga 

Em um laudo com mais de 50 páginas, o acontecimento do dia 3 de agosto começa com a discórdia pelo horário, entre o que a academia apresenta e o que o perito Marcos Monteiro afirma no documento. 

A reportagem teve acesso ao laudo, onde ele revelou por meio das possíveis provas que as imagens teriam sido manipuladas para, enfim, mudar a verdade quanto ao episódio de agressão.

Outro ponto que chama a atenção, são as discordâncias quanto às imagens que foram periciadas e aquelas que a academia encaminhou à polícia. O perito Marcos Monteiro, inclusive, cita que há conflitos nos pacotes de dados.

A academia diz que a briga aconteceu na área de musculação, por volta das 6 horas. Enquanto isso, no laudo de Monteiro, os registros das câmeras mostram outro horário, bem exato: 20h25s13.

A modelo, inicialmente, apresentou várias versões: chegou a dizer que não conhecia Thiago, depois, alegou ter conversado com ele por meio de aplicativo de mensagens logo após dar o seu contato e acrescentou que o empresário queria sair com ela, mas recebeu a rejeição. 

"Sendo técnico e imparcial, eu afirmo que houve ou alteração ou adulteração", afirma Monteiro. Ele reforça sua conclusão, afirmando que uma edição teria um objetivo. "O corte do vídeo criou uma narrativa", disse.

O problema das contradições não estão somente neste ponto:o mais grave durante toda a investigação foi o trabalho de um tabelião contratado pela academia para fazer uma análise dos vídeos.

Marcos Monteiro disse que o que foi apresentado pelo tabelião "é muito grave", por tamanhas inconsistências.

Segundo o perito, a identificação do número de série do DVR da marca Hikvision apresentado ao tabelião na ata notarial foi o número “1620220420CCWRJ82889815WCVU”.

Entretanto, quando se analisa um número de série do aparelho, como ilustrado no site oficial da empresa Hikvision, segundo Monteiro "é possível identificar que é impossível que o tabelião tenha de fato visto o número de série, pois no equipamento o adesivo que o descreve não é mais que 09 dígitos", comenta.

O perito ainda afirma, sem dúvidas, que o tabelião não viu pessoalmente o número de série do equipamento "examinado". Ele ainda reafirma que o funcionário do cartório não teve acesso físico ao equipamento.

"Na imagem ilustrada, extraída do site oficial do fabricante, apenas os números circulados em vermelho são de fato o número de série visível para quem tem acesso físico ao equipamento, assim sendo, se o tabelião tivesse de fato visto o DVR ele talvez tivesse descrito o DVR pelo número de série “J82889815”, pois apenas estes dados estariam colados no equipamento, o que demostra que o tabelião ignorou olhar o DVR fisicamente", afirma ele.

Monteiro ainda diz que a ata notarial, assinada pelo tabelião apresenta dados diferentes daquilo que já se apurou, o que é apresentado e considerado tão grave:

"Diferente do que fez entender na ata notarial, localizou o DVR, seu número de série e depois abriu o sistema, o que sabemos agora que o número de série foi apresentado a partir de uma tela de computador e não demostrando o equipamento no qual teria sido a origem de tais vídeos", diz. 

Por outro lado, Monteiro também revela, diante das análises, que o tabelião foi enganado:

"Da análise da ata notarial, claramente o tabelião é levado ao erro quando descreve a ação de coleta de um segundo DVR, como podemos observar a seguir em imagem extraída da ata notarial apresentada no processo".

O laudo em detalhe 

De forma mais específica, o laudo pericial aponta uma manipulação nas imagens que envolvem o caso de agressões do empresário Thiago Brennand à modelo Helena Gomes, ocorridas na academia BodyTech, no dia 3 agosto do ano passado, em São Paulo.

O perito Marcos Monteiro criou uma tabela de parâmetro comportamental dos envolvidos que vai de 0 a 4. Com isso, a modelo, em pouco mais de dois minutos, por sua agressividade, atinge o grau máximo.

O mesmo oconteceu com Brennand logo que foi atingido pela mulher. Monteiro também apresenta a modelo como M1 e Thiago H1 nessa questão.

A reportagem teve acesso ao documento completo. Em relação à manipulação das imagens, a perícia levou em consideração divergência entre imagens captadas por duas câmeras de circuito interno que são dipostas em pontos diferente da academia.

Em um dos trechos do vídeo periciado, o perito afirma que a imagem foi alterada, pois está desfocada exatamente no momento em que a modelo leva a mão ao rosto do empresário durante a discussão.

A partir disso, a grande divergência está na mesma imagem vista por outro ângulo, que mostra a mesma cena sem a alteração.

Marcos Monteiro ainda aponta, em seu trabalho, diversas situações que invertem a posição dos envolvidos no caso.

Por diversas vezes, o perito indica que os insultos e agressões teriam partido da modelo e não do empresário, como na acusação.

De forma detalhada, o perito degrava cada cena e explica o sistema de registro no DVR da academia. Segundo Monteiro, a dinâmica das agressões está presente em dois arquivos de vídeo apresentados pela academia.

No primeiro, a mulher inicia uma série de provocações que resulta em uma discussão exagerada, iniciada pela moça, como citado anteriormente - no laudo representada como M1.

Neste vídeo, M1 agride o acusado - no laudo representado como H1 - esta agressão inicia como a partir de gestos, movimento de afronta e culminando em movimentos compatíveis com tapa no rosto proferido por M1, além de movimento compatível como cuspe também proferido por M1 contra H1.

Acontece que, sem nenhum motivo sobre problemas técnicos, este vídeo é interrompido exatamente neste momento, quando H1 estava sendo agredido e mantendo uma posição passiva diante dos acontecimentos, como descrito. 

Manipulação

As suspeitas são de que os vídeos que mostram a briga podem ter sofrido alterações, isto porque há diferença, conforme citado anteriormente, no frame entre os vídeos. 

Em um trecho do laudo, final da página 45, o perito diz:

"O Metadado extrínseco dos arquivos de vídeo, apresentados para essa análise, indicam que os mesmos possuem a extensão ''. mp4'', a assinatura do arquivo remete a outro tipo de arquivo enquanto os sistemas de análise de metadados mais usado em análise forense simplesmente desconhecem o tipo de arquivo".

No mesmo tópico, é dito:"A imagem extraída do Frame n. 11, do Vídeo 2, ampliada e aplicada ao Software ImageJ (Plugin Clahe), apresenta um borrão que encobre a região compreendida entre a mão da M1, a cabeça do H1 e o ombro do “acusado”, diz.

O laudo segue com detalhes sobre a manipulação das imagens. O perito afirma:

"Através dos Frames 11, 12, 13, 14 e 15, do Vídeo 2, ocorridos no segundo 0’ do vídeo A03_20220803203722.mp4, extraídos com o uso do Software VLC, observa-se que o borrão apresentado acima aparece em mais de uma cena, bem como outros detalhes que serão comentados abaixo".

Imagem turva

Na página 47, o perito reforça sua conclusão pela manipulação das imagens diante das acusações de agressão.

"Observa-se, nesta imagem, que a mão do “acusado” perpendicular a sua cintura, o que aparenta movimento em direção a cintura da M1. A região central da imagem se apresenta turva na região marcada com um ponto que circunda a mão da M1, a cabeça do H1 e o ombro esquerdo do “acusado”. Não é possível arrazoar o fato".

Ainda nessa questão, o perito Marcos Monteiro comenta mais uma vez a tese de manipulação do material gravado.

"No frame imediatamente seguinte, nota-se um recuo na posição da mão do “acusado”, enquanto a mão da M1 gesticula. No ponto anteriormente marcado, e onde havia certa turbidez da imagem, aparece, nesse momento, mais nítido. No tocante ao ponto demarcado pela moldura vermelha, uma região que tem características de imagem recortada", diz.

Sobre a ação da modelo Helena Gomes durante a discussão, o perito aponta que ela estava pronta para a agressão: "A moldura no entorno de seu braço se acentua demarcada pelo quadro em vermelho; enquanto a mão da M1, já muito próxima ao queixo do “acusado”, aparentemente com o punho cerrado".

Ainda conforme a sua tese, em que as agressões podem ter partido da modelo e não de Thiago, o perito assinala no laudo que a mulher inicialmente leva a mão ao queixo do empresário.

"Neste frame, a moldura citada nas duas imagens anteriores não é visível e, por conseguinte, observa-se a mão do “acusado” (não está perceptível o relógio que este está usando e aparece nas duas imagens anteriores) próxima ao antebraço da M1, que agora está tocando o queixo do acusado”, afirma.

Para Marcos Monteiro, trecho das imagens mostra que a modelo pode ter desferido um tapa no rosto de Thiago.

"Neste último quadro, é possível identificar a mão direita da M1 já tendo cruzado a frente do queixo do “acusado”, num movimento similar a se dar um tapa no rosto do outrem, enquanto a mão esquerda do “acusado” aparentemente está sob o ombro da M1", diz o documento.

Na conclusão da perícia, Marcos Monteiro reforça que a análise foi feita em material cujos equipamentos de origem não foram fornecidos, ou seja, não há a demonstração do real acontecimento. 

Conclusão 

Pode-se dizer, então, que aconteceu uma análise de vídeos extraídos de um DVR com imagens referentes a setores internos da Academia BodyTech.

É necessário que se diga que o material entregue para análise não se refere ao dado propriamente dito, visto que apenas os vídeos em formato “.mp4” foram disponibilizados, quando é possível que o DVR entregue no formato “.RAW”, formato de vídeo em estado bruto,o que pode então ser considerado Vestígio Digital.

Diante deste fato, o primeiro deles diz respeito ao particionamento do Vestígio em dois vídeos diferentes, exatamente nos segundos iniciais da ação em questão, que estão em investigação.

Outro ponto contundente é retratado pela Colisão de Hashes ocorrida entre os 3 últimos frames do vídeo A03_20220803202500.mp4 e o primeiro frame do Vídeo A03_20220803203722.mp4, pois o Hash é extensamente utilizado no meio forense como ferramenta para garantir a integridade dos dados analisados,o que nos remete a possiblidade de ter havido alguma manipulação da imagem.

Da análise visual do material apresentado, ainda foram detectadas anomalias decorrentes desta subdivisão do vídeo no que diz respeito a uma possível quebra de continuidade no relógio de tempo entre a última imagem existente no Vídeo A03_20220803202500.mp4, e a imagem inicial do Vídeo A03A03_20220803202500.mp4; além da existência de frames com imagens borradas e quadros que podem indicar uma possível sobreposição de imagens.

''Por estas razões, para obter um resultado inequívoco, se faz necessário que a análise forense seja realizada sobre o dado bruto, ou seja, sobre os arquivos em formato RAW e sobre o DVR que contenha as imagens da ação, somente deste modo pode ser garantir que não houve alteração ou adulteração do estado da coisa," finaliza o perito.

Glossário

O Hash é um algoritmo matemático exclusivo que transforma qualquer bloco de dados em uma série de caracteres de comprimento fixo. Independentemente do comprimento dos dados de entrada, o mesmo tipo de hash de saída será sempre um valor hashe do mesmo comprimento. É com se fosse um DNA daquele bloco de dados. Não há nenhum igual ao outro.

Quem é o perito?

O professor Marcos Monteiro tem 31 anos de experiência na área de Informática, atualmente é presidente da Associação Nacional de Peritos em Computação Forense (APECOF); Organizador e Autor do Livro “Informática Forense” da coleção Tratado de Perícias Forenses da editora LEUD; Coautor do Código Deontológico de Boas Práticas de Investigação Defensiva da Associação Brasileira de Criminalística; foi Coordenador de Segurança da Informação e Computação Forense da Comissão de Direito Digital da OAB do estado de São Paulo.

Além disso, ele também possui certificação Internacional de Perito Forense - EC-Council (CHFI -Computer Hacking Forensics Investigator); proprietário da empresa Marcos Monteiro - Computação Forense; Professor e coordenador acadêmico dos cursos de pós-graduação em Segurança da Informação e Ciências de Dados (BI e Big DATA) da Universidade Christus; Especialista em Computação Forense e Perícia Digital pelo IPOG, MBA em Gerenciamento de Redes e Telecomunicações pela FATENE, MBA em Gerenciamento de Projetos de TI pela FFB, Mestrando em Informática Aplicada pela UNIFOR, Especializando em Direito Penal e Segurança Pública pelo Instituto Greco; foi Coordenador e Professor do Instituto de Pós Graduação (IPOG) dos Cursos de MBA em Segurança da Informação e Pericia Digital e da MBA em Informática Forense.

Professor de diversas instituições há mais de 20 anos, ele ainda foi programador, analista de Suporte, trabalhou na coordenação técnica dos projetos "Alvorada", “SPAECE-Net” e "Internet nas Escolas" da Secretaria de Educação do Estado do Ceará junto ao Instituto do Software do Ceará (INSOFT); Gerente de Informática dos laboratórios de Analises Clinicas da UNIMED Fortaleza; Analista de Redes da Procuradoria Geral do Município de Fortaleza; Coordenador de Tecnologia da Informação e Comunicação da Secretaria de Ciências e Tecnologia da Prefeitura de Maracanaú; Professor do SENAI na preparação do representante do estado do Ceará na olimpíada nacional do conhecimento na área de redes de computadores.

Além de ser gerente de redes e sistemas do grupo de redes de computadores, engenharia de Defesa Agropecuária do estado do Ceará; fez parte do Grupo Técnico de Governança de TI do Estado do Ceará; Diretor-proprietário da MicroService Comercio e Serviços em Informática LTDA, onde estive a frente de projetos de Governança de TI, Intra-Estrutura de T.I.C., Desenvolvimento de Aplicações e WebSites; Professor da Fundação Universitária de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNDECT) e Faculdades INTA no curso de pós-graduação em Redes e Segurança de Sistemas, nas disciplinas de Gerenciamento de Redes e Tecnologias de Redes sem fio.

Foi também, por sete anos, Professor da Universidade Estácio de Sá (FIC) dos cursos de graduação tecnológica em Analise e Desenvolvimento de Sistemas, Redes de Computadores e Bacharelado em Sistema de Informação com disciplinas como Arquitetura de Software, Qualidade de Software, Organização de Computadores, Segurança da Informação, Programação para Servidores, Analise de Redes, Administração de Redes em Software Livre; foi Diretor do grupo de gestores de TIC (http://www.ggtic-ce.org.br), também Diretor de grupos de Interesse da Associação de usuários de Informática e Telecomunicações (http://www.sucesuce.org.br); Foi colunista entre 2006 e 2015 do JORNAL DIÁRIO DO NORDESTE (coluna “Tira-Duvidas”, todas as segundas na página de tecnologia."

Compartilhe